Black Lagoon faz 20 anos: sem magia, só violência

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Black Lagoon estreou há vinte anos, em 9 de abril de 2006, e mesmo sem feitiços, escola ou superpoderes, continua a bater forte no coração e no estômago. Roanapur, essa cidade onde ninguém sobrevive inocente, é basicamente o playground do caos.

O que fazia Black Lagoon ser diferente em 2006

Naquele abril de 2006, enquanto a TV Tokyo lançava Gintama e fazia a primavera parecer uma festa de luzes, a Chiba TV colocava outra vibe no ar: Black Lagoon. E a diferença gritava logo de início. Nada de magia, nada de escola, nada de “vamos salvar o mundo com um discurso motivacional”. Aqui, a regra é simples: tu és um peão numa operação que dá errado e a tua moral fica em modo silencioso.

A história acompanha Rokuro Okajima, um quadro médio abandonado pelos superiores durante uma entrega que corre mal. O “plano” é bem menos heróico do que parece: acaba sequestrado pela Lagoon Company, um grupo de piratas mercenários que opera pelo Sudeste Asiático. O Rokuro vira Rock, e o resto é a aprendizagem acelerada de sobrevivência em ambiente hostil.

Roanapur e as influências de crime de Hong Kong

O anime é baseado no mangá de Rei Hiroe, publicado desde 2002, e já nessa estrutura se sente a ambição. Mas o que realmente marcou 2006 foi o tom estético. O estúdio Madhouse e a direção do Sunao Katabuchi trouxeram uma linguagem de cinema policial que não pedia licença.

Hiroe citou influências como John Woo, Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, mais o sabor do cinema policial de Hong Kong dos anos 80 e 90. O resultado? Uma mistura que equilibra violência e humor com uma frieza quase estilizada, tipo black comedy com tiros. E por cima disso, Roanapur, a cidade fictícia, funciona como um tabuleiro neutro controlado por cartéis, máfias russas, tríades e mercenários. Não há garantia de redenção e, muitas vezes, o “vilão” parece mais humano do que o “herói de cartaz”.

Se gostas deste tipo de referência cinematográfica, vale lembrar que a vibe também conversa com a forma como o cinema de Pulp Fiction mexeu com a perceção de ritmo e diálogo naquela era.

Revy e Rock: química estranha que funciona

No centro do caos está a dinâmica entre o Rock e a Revy. Se o Rock tenta manter um ideal obstinado meio teimoso, a Revy responde com cinismo absoluto e pragmatismo. Ela não é só “a pistoleira”; é o músculo e também a consciência moral invertida do grupo. E sim, a série pega na violência como linguagem, mas sustenta emoção no confronto de valores.

A Revy tem duas Beretta 92 personalizadas e um estilo que grita confiança. O desenho da personagem, segundo relatos ligados ao processo criativo, bebeu inspiração da tatuagem usada por George Clooney em From Dusk Till Dawn. Pode parecer detalhe bobo, mas é o tipo de escolha que ajuda a tornar a personagem instantaneamente reconhecível. Em termos de “impacto de fandom”, ela foi do tipo que entrou na galeria das figuras que as pessoas mencionam sem pedir contexto.

Quanto ao grupo, Dutch é o líder calculista, Benny é a mente técnica, e o resto do elenco serve para provar uma coisa: em Roanapur, cada missão é uma roleta emocional. Às vezes tu ganha. Muitas vezes tu só aprendes a não repetir.

Mangá em pausa, legado em alta: 20 anos depois

Apesar de a adaptação anime ter somado 29 episódios, a história que continua a puxar conversa é o mangá. Desde 2010, Rei Hiroe tem lidado com depressão clínica, o que afeta o ritmo e causa hiatos. Em 2025, ele falou abertamente sobre o trabalho ir ficando cada vez mais difícil, com a sensação de o processo arrebentar como um elástico esticado no limite.

O arco Roberta’s Blood Trail, adaptado em OVA de cinco episódios entre 2010 e 2011, é frequentemente visto como o mais ambicioso. Mas também dividiu leitores, e a divisão do público, somada ao estado mental do autor, acabou por deixar tudo ainda mais pesado. Ainda assim, Black Lagoon não desapareceu. Pelo contrário: continua a ser descoberto por novas gerações que chegam sem manual de instruções e acabam por ficar.

Se ainda não viste, que desculpa é essa?

Vinte anos depois, Black Lagoon ainda soa como uma proposta radical: adulta, suja, cinematográfica e sem muletas mágicas. Roanapur não convida, não promete salvação, e nem precisa. Se tu queres anime de crime com estilo, ritmo e personagens que falam como gente quebrada, esta série ainda está no ponto. E, sinceramente, é uma pena que a “próxima adaptação” continue sendo um rumor distante.