O terror visceral resgata a essência do monstro em um pesadelo familiar perturbador
Esqueça as aventuras divertidas com Brendan Fraser ou a ação desenfreada do longa estrelado por Tom Cruise. Se você entrar no cinema esperando uma exploração arqueológica recheada de aventura, saiba que “Maldição da Múmia” fará questão de destruir essa expectativa logo nos primeiros minutos. Sob a batuta de Lee Cronin — o mesmo diretor que comandou o banho de sangue em A Morte do Demônio: A Ascensão —, e com o dedo de mestres como James Wan e Jason Blum na produção, a franquia abandona o rótulo de blockbuster amigável e abraça o terror grotesco e puramente visceral que o monstro original exigia.
A premissa ousa ao trocar o escopo épico dos desertos egípcios por uma tragédia íntima e claustrofóbica. A trama acompanha um casal de jornalistas (Jack Reynor e Laia Costa) que vê sua filha, Katie, desaparecer misteriosamente sem deixar rastros. Oito longos anos de luto se passam até que um acidente bizarro liberta um sarcófago contendo a garota, agora adulta. O milagre do reencontro, no entanto, é engolido por um horror absoluto quando a família percebe que a jovem trouxe consigo uma força sombria e ancestral.
É brilhante a forma como o roteiro usa a dor da perda como motor do pânico. O grande conflito da narrativa não é apenas combater uma entidade invencível, mas lidar com o fardo de que o monstro que está dilacerando a casa é, no fundo, a filha que eles passaram quase uma década implorando para ter de volta. Essa âncora emocional pesada torna o suspense muito mais palpável e angustiante.
Na parte técnica, Lee Cronin não economiza. O filme é brutal, nojento e se apoia pesadamente no body horror (terror corporal). A sensação de deterioração da carne é incômoda, e há momentos em que desviar o olhar da tela será um instinto de sobrevivência para quem tem o estômago mais fraco. Contudo, surpreendentemente, o diretor ainda encontra brechas para inserir um sutil humor ácido em meio ao desespero — não para transformar o filme em comédia, mas para rir do absurdo da tragédia humana, aumentando ainda mais o desconforto.
Com uma direção de arte impecável que favorece texturas reais e efeitos práticos sobre o CGI excessivo, o longa atinge em cheio os fãs que buscam um verdadeiro filme de terror. É o tipo de obra que gruda na mente mesmo depois que as luzes do cinema se acendem.
Em suma, “Maldição da Múmia” é uma reinvenção corajosa que apaga os tropeços recentes da franquia e devolve a criatura ao seu lugar de direito: os pesadelos do público. Um banquete sangrento, claustrofóbico e absolutamente inesquecível.







