Hajime no Ippo no PS3: idioma que eu não ignorei

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Como alimentar um bebê virou a trilha sonora perfeita para eu acabar ignorando a barreira do idioma e caçar um jogo de anime que ficou preso no Japão.

Do berço ao ringue: por que o PS3 virou madrugada

Existe uma fase da paternidade que é quase um speedrun do caos: seu bebê decide que dormir é opcional e a noite vira “stream ao vivo” só que sem play e sem pausa. Foi assim que, depois do nascimento do meu primeiro filho, eu comecei a acordar durante a madrugada para dar mamadeira. E, pra não cair no sono durante o turno, eu colocava um anime para rodar de fundo.

No meio desse ritual, me veio à cabeça o Ippo. Eu já era fã de boxe de uma forma bem nerd e torta, porque conhecia a fama da franquia por causa de Slam Dunk (obrigatório pra quem gosta de esportes japoneses) e também por já ter ouvido falar bem de Ashita no Joe. Só que eu nunca tinha parado pra mergulhar de verdade. Aí, numa dessas madrugadas, pronto: o simpático pugilista me puxou pelo colarinho e, três anos depois, eu estava com o jogo na minha lista de “preciso jogar” feito missão final.

Hajime no Ippo: o motivo do “não lançou aqui”

Lançado no Japão em 2014, Hajime no Ippo: The Fighting! ficou no modo difícil mesmo: exclusivo do país, no fim da vida do PlayStation 3, enquanto o PS4 já fazia bonito logo ali. E aí entra a lógica que muita gente já conhece: quando a Bandai Namco enxergou que era algo mais nichado, ela escolheu não apostar em localização.

Mesmo sendo baseado em um dos animes de esporte mais importantes, a obra ficou tempo demais sem atravessar o oceano com força na TV ocidental. Resultado: a decisão de não traduzir e não trazer pro Ocidente foi bem “comercialmente racional”. E sim, do ponto de vista do jogador ocidental, é a clássica sensação de ver o jogo na prateleira do outro universo.

Se você curte acompanhar esses movimentos de lançamento, a Famitsu costuma registrar bastante a cena japonesa e ajuda a entender como a indústria pensa na hora de avaliar um título.

Adaptação sem preguiça: do mangá ao cel shading

O anime de Hajime no Ippo tem três temporadas, cobrindo uma parte grande da carreira do Ippo, indo até onde dá para sentir que o mangá ainda tem muito chão pela frente. Já o jogo faz o inverso do que hoje a gente vê. Em vez de ficar só no “arco inicial e acabou”, ele estica a história até um ponto que, se fosse lançado na era moderna, viraria facilmente DLC com DLC e mais DLC.

Na jogabilidade, a proposta também é bem diferente de antigas adaptações. Em vez de simulação pesada tipo “segue a lógica de boxe do EA Sports e torce”, aqui tem uma pegada mais arcade ágil, alinhada ao ritmo dos golpes em animação. E o visual é outro papo: o cel shading tenta manter o peso estético do traço do George Morikawa, como se o mangá tivesse ganhado vida e resolvido entrar no round.

O sistema Best Scene é o tempero que entrega o sentimento de estar “jogando o mangá”. A tela congela e recria o quadro exato, com dublagem original ao fundo, quando o jogador cumpre requisitos específicos durante a luta. É quase aquele “uau, consegui!” que recompensa quem conhece os personagens e deixa o novato curioso.

E o mais legal é que cada boxeador tem identidade própria, com combos, posturas e golpes únicos. Sendo e seu Smash, Mashiba e o Flicker Jab, Date e o Corkscrew punch. Traduzir tudo isso em gameplay exige respeito, e aqui parece que alguém do time realmente leu o material de origem.

A comunidade salvou: patch parcial e emulação

Como o jogo tenta adaptar não só lutadores, mas também a narrativa, a barreira do idioma vira um chefe final meio chato. Sem tradução, menus e legendas essenciais viram um “feeling” baseado em tentativa e erro. Foi exatamente nesse ponto que eu me peguei decifrando o japônes no instinto, do jeito que dá para alguém fazer quando tá cansado e com o coração na bateria de madrugada.

E aí vem o plot twist bom: a comunidade de fãs não deixou o jogo morrer no esquecimento. Existe um patch de tradução parcial feito por modders, traduzindo menus e elementos essenciais do japonês para o inglês. Não é uma tradução completa de tudo, mas já quebra o gelo e deixa o jogo jogável de forma mais respeitosa.

Com preservação, emulação e recursos modernos, hoje dá para rodar em configurações bem altas emulando, ou até acessar no próprio PlayStation 3 de forma não oficial, dependendo do que você busca e do seu setup. No fim, Hajime no Ippo: The Fighting! vira uma carta de amor para quem coleciona curiosidade, e também para quem não desiste no primeiro menu estranho.

E se eu tivesse desistido no primeiro menu?

Eu quase desisti. Quer dizer, foi bem isso: pensei em “ok, idioma, tanto faz”, mas a rotina do bebê e o carinho pela obra me empurraram pra frente. Aí descobri que, com um pouco de persistência e ajuda da comunidade, dá para atravessar barreiras que a indústria colocou sem pensar no fã específico.

Se você é daquele tipo que gosta de achar joia esquecida, vale muito colocar Hajime no Ippo: The Fighting! na fila mental e ver como a adaptação segura o impacto do mangá. E no meu caso, o ringue começou depois da mamadeira. Nerd demais? Talvez. Mas foi perfeito.

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