Goro Taniguchi acusa anime de virar fast food e perde foco

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Goro Taniguchi não está a medir palavras: numa palestra de 90 minutos na Universidade de Keio, ele voltou a criticar a indústria por estar a transformar anime em produção em série, tipo fast food, com pouca supervisão criativa e identidade a desaparecer.

Introdução: a metáfora do “fast food” explica tudo

Quando um diretor com créditos pesados em Code Geass e One Piece Film: Red diz que o anime está a virar “comida de plástico”, não é só drama de bastidor. É um diagnóstico sobre o processo: a sensação de ver cenas competentes, mas no fim parecer tudo desconexo. Em Keio, no evento patrocinado pela ARCH, Goro Taniguchi foi direto ao ponto e chamou o resultado de “fast food”. Estimulante, sim. Com pouca individualidade e, principalmente, sem coerência de conjunto.

O que Taniguchi disse na Universidade de Keio

A palestra, segundo relato do Asahi Shimbun, focou na ausência de supervisão criativa real. Taniguchi comparou a situação ao caos de “toda a gente fazer as coisas de forma desconexa”. Para ele, se a intenção fosse mesmo produzir algo rápido e padronizado, tudo bem. O problema é que o processo está a entregar comida rápida como efeito colateral, e não como objetivo assumido. E aí começa o estrago.

Um dos pontos mais fortes foi a forma como certos profissionais de produção estão a expor o antes e depois do trabalho. Especialmente diretores de fotografia, que publicam nas redes comparações de cenas e tratamentos de imagem. Taniguchi criticou isso como “embaraçoso”, não porque o trabalho seja mau, mas porque o que deveria ser planeado desde o início muitas vezes aparece como correção de defeitos vindos de materiais já em mau estado.

Em vez disso, a “forma correta”, na visão dele, seria o diretor planear tudo antes e instruir de forma precisa o diretor de fotografia para executar dentro do mesmo plano. Quando isso não acontece, o produto final vai ficar cheio de pequenas vitórias isoladas e falhar no conjunto.

Como a falta de planeamento destrói a coerência do anime

O raciocínio do diretor é estrutural. Se cada departamento trabalha com autonomia total, sem uma visão unificada, o resultado pode parecer tecnicamente “ok” mas perder identidade. Pode ter um tratamento de cor apelativo, uma composição musical que encaixa, animação bem executada em certas sequências. Só que, no somatório, o anime não se sente como uma peça única. Fica com cara de “patchwork”.

Essa crítica encaixa na linha que Taniguchi tem defendido há anos: a indústria não pode viver só de adaptações. Ele já avisou que, se o anime ficar preso a adaptações constantes, a animação japonesa corre o risco de acabar. E faz sentido, porque a adaptação muitas vezes transforma o estúdio em executor de material existente, em vez de espaço de criação do zero.

Aliás, a postura é coerente com o mais recente projeto dele, L’étoile de Paris en fleur, que nasceu como obra original, sem mangá ou light novel por trás. Não é só “mais um” lançamento no calendário. É uma espécie de manifesto prático: quando há espaço para compor, o resultado tende a ganhar alma. Para contexto do que ele vem a defender, vale lembrar as discussões anteriores de Taniguchi, como o alerta publicado em matérias do OtakuPT.

O golpe no treino: o sistema de um cour e o colapso

Além de supervisão, Taniguchi puxou a corda para a formação. Ele associou o problema ao colapso de um sistema informal de aprendizagem que durante décadas funcionou como motor para novos talentos. E aqui entra o fator “cour”. Ele apontou que, por volta de 2005, houve aumento de séries de apenas um cour, enquanto antes havia dois. O efeito foi direto: em equipas grandes, cada pessoa só consegue estar envolvida num número limitado de episódios.

Com um cour, ele afirma que um membro da equipa só pode participar em, no máximo, três episódios. E “três episódios não chegam para aprender nada”. Ou seja, o treino acontece pouco, a passagem de conhecimento perde continuidade e o desenvolvimento interno vira uma espécie de carimbo: executa, entrega e passa para o próximo projeto. Parece eficiente, mas mina a cultura criativa.

No mesmo tom, ele disse que este problema ainda não foi resolvido adequadamente. E, curiosamente, apontou exceções: grandes estúdios focados em séries longas, especialmente animação infantil, onde os diretores de episódios costumam ter mais feedback e orientação continuada do diretor-chefe. É menos “linha de montagem”, mais “processo vivo”.

O anime vai continuar a ser fast food, ou vai virar obra com identidade?

No fim, a mensagem de Goro Taniguchi é quase inevitável: sem planeamento e sem supervisão, o anime vira soma de partes que não conversam entre si. Sem espaço para criação e sem tempo para aprender, a indústria perde a “assinatura” que faz um trabalho ser mais do que bonito. E se já é difícil manter consistência quando tudo roda rápido, torna-se ainda mais complicado quando a própria estrutura empurra equipas para o modo sprint.

A palestra de Keio pode ter sido para estudantes, mas a bronca é para a indústria inteira. Porque, no universo geek, a gente sabe reconhecer quando a história tem coração. A questão é se o processo ainda deixa o coração aparecer.

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