Ray Gunn é a aposta da Netflix que mistura detetives, alienígenas e o charme sombrio do cinema noir.
- Um sonho guardado por décadas
- Um detetive em apuros
- Metropia tem cheiro de noir
- Uma animação para quem?
- A aposta da Netflix
Um sonho guardado por décadas
Brad Bird passou mais de 30 anos com Ray Gunn na cabeça. O cineasta escreveu a primeira versão do roteiro nos anos 1990, mas a fusão entre a Turner Broadcasting System e a Time Warner, em 1996, acabou travando o projeto. Aquelas reorganizações corporativas que parecem roteiro de vilão, só que sem a parte divertida.
Bird não largou a ideia. Michael Giacchino, parceiro do diretor e compositor premiado por Up: Altas Aventuras, conta que ouviu falar do longa em 2003, enquanto os dois trabalhavam em Os Incríveis. Agora, o projeto enfim vai sair da gaveta, com Bird na direção e no roteiro ao lado de Matthew Robbins, colaborador de Guillermo del Toro.
Esse longo período de espera já dá uma cara especial à produção. Não é só mais um filme criado para preencher uma janela do catálogo: é uma história que acompanhou o diretor por boa parte da carreira. E, convenhamos, a curiosidade aumenta quando uma ideia sobrevive a tantas mudanças em Hollywood.
Um detetive em apuros
O protagonista é Ray Gunn, vivido por Sam Rockwell: um detetive particular tentando fazer seu trabalho num futuro em que humanos e alienígenas dividem o mesmo mundo. O caso que vira sua rotina do avesso envolve Venus Nova, cantora misteriosa interpretada por Scarlett Johansson.
A premissa tem aquele sabor de investigação clássica, mas não espere apenas um policial de chapéu perseguindo suspeitos por becos escuros. A ficção científica abre espaço para uma cidade cheia de criaturas e possibilidades visuais, enquanto o mistério promete manter o detetive preso a uma trama maior do que ele gostaria.
Ray Gunn também recupera figuras bem conhecidas do noir: o investigador cínico, personagens de moral duvidosa e uma mulher que talvez saiba mais do que revela. Venus foi concebida com referências a Lauren Bacall e Veronica Lake. Já Chinatown aparece entre as inspirações do projeto, o que sinaliza que o clima de conspiração não está ali só para combinar com a iluminação dramática.
Metropia tem cheiro de noir
Apesar de a história se passar num cenário futurista, a referência temporal é 1939. A equipe olhou para a Feira Mundial de Nova York daquele ano ao criar Metropia, uma cidade fictícia de linhas Art Déco e visual retrofuturista. É uma mistura que pode render imagens deliciosamente estranhas: o futuro imaginado por alguém que ainda reconhece o passado.
As referências não param por aí. Mad Men e Columbo também ajudaram a orientar o visual. Essa combinação é promissora porque evita o caminho mais óbvio da ficção científica, aquele pacote de luzes neon, telas holográficas e prédios genéricos que parecem ter sido montados no mesmo editor de cenário.
O contraste pode ser justamente a personalidade do filme. Em vez de separar noir e ficção científica em caixinhas, Ray Gunn parece interessado em fazer os dois conversarem. O resultado ideal é uma investigação com o peso e a atmosfera do cinema policial clássico, mas atravessada por criaturas e cenários que só a animação consegue inventar sem pedir licença à gravidade.
Uma animação para quem?
Bird quer escapar de uma divisão que ainda aparece bastante: animação como sinônimo de aventura infantil ou como desculpa para exagerar na violência e no conteúdo adulto. A proposta é buscar um público mais amplo, sem tratar quem assiste como criança e sem confundir maturidade com choque gratuito.
É uma ambição interessante, embora o equilíbrio seja delicado. Uma história com detetive cínico, femme fatale e conspiração pode facilmente ficar séria demais; por outro lado, encher tudo de piadinhas para agradar a qualquer idade também tiraria a força do noir. A expectativa é que Bird encontre o meio-termo que já demonstrou em obras como Os Incríveis e Ratatouille: filmes acessíveis, mas com camadas para quem gosta de prestar atenção.
A aposta da Netflix
Depois do sucesso gigantesco de Guerreiras do K-Pop, a Netflix procura uma nova animação capaz de virar assunto para além do público habitual do gênero. Ray Gunn chega com nomes conhecidos, uma identidade visual própria e uma história que não parece saída de uma linha de montagem. Isso já o coloca entre os lançamentos mais curiosos da plataforma.
O filme tem 119 minutos e estreia na Netflix em 18 de dezembro. A combinação de Bird, Giacchino, Rockwell e Johansson é forte no papel, mas o verdadeiro teste será transformar tantas referências em uma história que funcione por conta própria. Se Metropia tiver o mesmo cuidado que a ideia sugere, pode ser o tipo de animação que faz a gente terminar o filme querendo voltar para aquele mundo. E, para uma aposta de fim de ano, não é pouca coisa.
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