I Am Not Okay With This: Matilda encontra Carrie

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I Am Not Okay With This transforma os dramas da adolescência numa mistura de telecinese, humor ácido e tensão digna de Stephen King.

Poderes em curto-circuito

Tem série que apresenta uma adolescente com poderes e já prepara o terreno para uma aventura de capa, vilão e trilha épica. I Am Not Okay With This vai por outro caminho: sua protagonista, Sydney, está tentando sobreviver ao ensino médio, aos conflitos em casa e a uma cabeça que parece ter instalado um alarme sem botão de desligar.

Interpretada por Sophia Lillis, Sydney começa a desenvolver telecinese enquanto encara as turbulências comuns, e nada tranquilas, de crescer. A série, lançada pela Netflix em 2020, adapta a graphic novel homônima de Charles Forsman, publicada em 2017. O resultado não trata os poderes como um presente brilhante. Para Sydney, eles chegam mais como um problema novo numa lista que já estava grande.

E aí mora uma boa sacada: a telecinese não é só um truque visual para jogar objetos pela sala. Ela funciona como expressão de emoções que a personagem não sabe organizar ou colocar em palavras. Adolescência já parece uma panela de pressão; adicionar habilidades sobrenaturais é aquele detalhe que definitivamente não ajuda.

Matilda e Carrie na mesma sala

A comparação com Matilda aparece naturalmente. As duas personagens têm poderes mentais e precisam lidar com um mundo adulto que nem sempre oferece acolhimento. Só que a série da Netflix troca a fantasia mais leve por uma abordagem atravessada por desconforto, humor sombrio e problemas bem mais pesados. Não espere uma versão adolescente da história de Roald Dahl com final de sessão da tarde.

Do outro lado está Carrie, a personagem de Stephen King cuja telecinese se mistura a isolamento, trauma e explosões emocionais. A proximidade não é uma coincidência que a equipe tentou esconder: Christy Hall, cocriadora da série, reconheceu que as comparações com outras protagonistas eram parte da conversa criativa. A produção não copia essas histórias, mas entende o peso que os poderes podem carregar quando a personagem ainda está tentando descobrir quem é.

O equilíbrio é interessante justamente porque Sydney não vive num filme de terror o tempo todo. Há momentos de tensão, claro, mas a narrativa também preserva o foco na vida adolescente e em temas LGBTQ+. A série usa referências conhecidas como ponto de partida, sem transformar a protagonista numa colagem de personagens alheias.

Adolescência sem filtro

O tom também aproxima I Am Not Okay With This de The End of the F***ing World, outra produção da Netflix que prefere personagens esquisitos, diálogos secos e sentimentos mal resolvidos a uma adolescência embalada para presente. Não é a mesma história, mas existe uma familiaridade nessa maneira de olhar para jovens que não se encaixam e não sabem muito bem como pedir ajuda.

Essa escolha impede que a série vire apenas uma disputa de efeitos especiais. O que importa não é só o que Sydney consegue mover com a mente, mas o que está acontecendo dentro dela quando o controle escapa. A telecinese dá forma ao caos emocional sem fingir que crescer é sempre uma jornada inspiradora com uma lição bonitinha no último episódio.

Uma série que parou cedo

O problema é que a história não teve tempo para amadurecer junto com sua protagonista. A Netflix chegou a planejar uma segunda temporada, mas cancelou a produção antes que ela pudesse continuar. Assim, a série ficou restrita a uma única temporada, deixando no ar a sensação de que havia material para explorar melhor Sydney, seus poderes e os vínculos que davam humanidade à trama.

É uma pena especialmente porque a mistura tinha personalidade. Matilda oferece o contraste, Carrie traz a sombra e Sydney ocupa um espaço próprio entre as duas. A série não precisava escolher entre ser um drama adolescente ou uma história sobrenatural: seu charme estava justamente em deixar essas coisas se chocarem.

Ainda vale o play?

Vale, principalmente se você gosta de personagens imperfeitas e de histórias fantásticas que começam com problemas muito humanos. Só é bom entrar sabendo que não existe continuação para resolver a curiosidade de quem termina a temporada querendo mais. A experiência é curta, mas tem identidade, uma protagonista carismática e uma ideia central que vai além de fazer objetos levitarem.

I Am Not Okay With This talvez seja uma daquelas séries que o catálogo da Netflix enterra rápido demais. Para quem curte histórias de amadurecimento com uma dose de estranheza, é uma descoberta que ainda merece o play. E, convenhamos, Matilda e Carrie dividindo espaço numa mesma conversa já é um convite bem difícil de ignorar.

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