Filhos de Sangue e Osso virou uma adaptação que sua autora preferia nunca ter vivido. Tomi Adeyemi diz que não pretende aceitar outra versão de seus livros para o cinema.
- Uma experiência que pesou
- O que aconteceu nos bastidores?
- A adaptação e as escolhas
- O filme ainda vem aí
Uma experiência que pesou
Tem autor que acompanha uma adaptação de perto e comemora cada detalhe. Tomi Adeyemi parece ter saído do outro lado dessa jornada com uma conclusão bem diferente: não quer repetir a experiência. Em entrevista ao The Guardian, a escritora afirmou que não vai mais autorizar adaptações de seus livros para o cinema.
A declaração vem depois de um relato público sobre os bastidores do filme de Filhos de Sangue e Osso, baseado no romance lançado em 2018. Em julho, Adeyemi publicou um vídeo no TikTok dizendo que o processo tinha sido a pior experiência de sua vida. O vídeo foi apagado depois, mas as palavras deixaram claro que a relação com a produção estava longe de ser tranquila.
Ela descreveu episódios de hiperventilação e choro no set, além de dizer que se sentiu antagonizada nos bastidores. Também relatou dores físicas intensas e ataques de pânico depois de voltar aos Estados Unidos. São declarações fortes, mas a autora não detalhou o que ocorreu; sem essa parte da história, não dá para preencher as lacunas com especulação de internet.
O que aconteceu nos bastidores?
Adeyemi explicou que decidiu falar porque sentia que precisava disso para conseguir seguir em frente. Na entrevista, resumiu a trajetória da trilogia e da adaptação como algo que parecia “bíblico” e que consumiu tudo dela. É uma frase que dá a dimensão do desgaste, mesmo sem revelar os acontecimentos específicos que o provocaram.
O episódio também virou assunto por causa de uma publicação envolvendo Amandla Stenberg, integrante do elenco. Em julho, Adeyemi compartilhou um vídeo que aparentemente mostrava mensagens dirigidas à atriz, pedindo que ela não usasse seu nome em entrevistas nem entrasse em contato. Segundo o Los Angeles Times, a escritora também teria bloqueado Stenberg.
Vale separar as peças: há o que Adeyemi disse diretamente, há informações atribuídas à imprensa e há interpretações que circulam entre fãs. Misturar tudo numa teoria fechadinha seria tentador, mas não seria justo com ninguém. O que se sabe é que a relação entre autora e produção se tornou pública e bastante tensa.
A adaptação e as escolhas
Outro ponto que gerou debate foi a escalação de Stenberg. Fãs questionaram a escolha por causa da descrição da personagem nos livros, que menciona pele de cobre escuro, e levantaram discussões sobre colorismo. Questionada sobre o assunto, Adeyemi afirmou que as decisões de um filme cabem à diretora, Gina Prince-Bythewood, e não a ela.
A escritora contrastou essa situação com o controle que tem sobre a própria obra escrita: no livro, explicou, cada escolha, até uma vírgula, está em suas mãos. Para quem lê, esse é um lembrete incômodo sobre como uma adaptação funciona. O texto original pode ser o ponto de partida, mas a versão filmada envolve decisões criativas de outras pessoas.
Isso não significa que a discussão sobre representação deixe de importar, nem que a autora esteja automaticamente satisfeita com cada escolha. Significa apenas que, segundo a própria Adeyemi, essas escolhas não foram dela. E, quando a adaptação mexe com personagens que leitores carregam na cabeça há anos, a conversa sobre fidelidade raramente fica só no figurino.
O filme ainda vem aí
Apesar do desgaste relatado, o longa segue previsto para chegar aos cinemas em 15 de janeiro. Além de Stenberg, o elenco reúne Thuso Mbedu, Damson Idris, Cynthia Erivo, Lashana Lynch, Chiwetel Ejiofor, Regina King, Idris Elba e Viola Davis. É um grupo de nomes de peso, mas elenco estrelado não apaga as perguntas sobre como a história será recebida.
Adeyemi disse que ainda não pretende assistir ao filme e acrescentou que não sente que seja algo que precise ver. É uma posição compreensível diante do que contou, embora deixe a adaptação numa situação curiosa: o público poderá julgar o resultado, mas a criadora da obra não quer fazer parte dessa estreia como espectadora.
Agora, a conversa fica dividida entre o que o filme vai entregar e o custo pessoal que sua produção parece ter tido para a autora. Dá para torcer por uma boa adaptação e, ao mesmo tempo, levar a sério o relato de quem viveu os bastidores. Uma coisa não precisa apagar a outra.
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