James Van Der Beek foi lembrado com carinho e uma boa dose de provocação pelo criador de Dawson’s Creek.
A briga por uma palavra
Kevin Williamson, criador de Dawson’s Creek, relembrou os primeiros anos da série com uma história que parece saída de uma discussão entre roteirista e ator no meio de uma madrugada de produção. Durante a cerimônia do Barbara Berlanti Heroes Gala, em Santa Monica, ele contou que James Van Der Beek questionava algumas palavras dos roteiros.
O ator ligava para Williamson para perguntar por que Dawson precisava dizer determinado termo, já que, segundo ele, ninguém saberia o que aquilo significava. A resposta do roteirista era uma provocação bem-humorada: não precisava se preocupar, porque, do jeito que Van Der Beek murmurava as falas, ninguém ouviria a palavra mesmo.
Williamson resumiu aquela dinâmica como uma conversa entre Dawson e Dawson. É uma daquelas lembranças que funcionam porque não transformam a história em uma anedota grandiosa. Era uma implicância cotidiana, daquelas que nascem quando duas pessoas trabalham juntas por muito tempo e já sabem exatamente onde cutucar.
Dawson falando com Dawson
A piada também combina com o personagem. Dawson Leery era um adolescente que levava cinema, diálogos e os próprios sentimentos muito a sério. Às vezes, sério até demais. Se você assistiu à série, sabe que aquele garoto tinha energia de quem transformaria uma conversa no corredor em monólogo de final de temporada.
Van Der Beek, por sua vez, não parecia aceitar cada linha do roteiro sem pensar. Questionar uma palavra pode parecer um detalhe minúsculo, mas revela um ator tentando entender como o texto soaria na boca do personagem. E, no caso de Dawson, talvez a dúvida sobre uma expressão complicada fosse mais uma oportunidade para discutir o jeito peculiar do protagonista falar.
O comentário de Williamson não soa como uma reclamação amarga. A provocação sobre o ator ser um pestinha vem acompanhada de afeto, como uma lembrança de bastidor que só tem graça porque existe uma relação verdadeira por trás dela. Não é difícil imaginar os dois repetindo esse ritual a cada novo roteiro.
Do pestinha ao amigo
O próprio Williamson fez questão de olhar além da brincadeira. Ele disse que viu Van Der Beek passar de um garoto jovem a um homem extraordinário, marido, pai e amigo. Para o criador, a vida do ator teve um arco completo, expressão que ganha um peso especial quando vem de alguém que passou anos escrevendo histórias sobre amadurecimento.
Esse relato oferece uma imagem mais humana do que a lembrança habitual de uma estrela adolescente. Antes de virar o rosto associado a uma série que marcou o fim dos anos 1990, Van Der Beek era um jovem ator no começo de uma longa jornada. E, pelo jeito, não tinha medo de telefonar para o criador da série para discutir o texto. Coragem ou espírito de pestinha? Provavelmente os dois.
Dawson’s Creek estreou em 1998 e teve seis temporadas. A produção também ajudou a projetar Michelle Williams, Katie Holmes e Joshua Jackson, mas Van Der Beek permaneceu como o centro emocional da história, mesmo quando Dawson dava vontade de pedir, com carinho, que ele respirasse antes de começar outro discurso.
O legado que fica
Van Der Beek morreu em fevereiro, aos 48 anos. Ele havia recebido o diagnóstico de câncer colorretal em 2023 e tornou a doença pública no ano seguinte. O ator compartilhava partes da luta com o público e chegou a ser confirmado em uma reunião do elenco de Dawson’s Creek, mas problemas de saúde impediram sua presença pessoal.
Além da série que o tornou conhecido, ele trabalhou em produções como Criminal Minds, How I Met Your Mother, One Tree Hill, Pose e CSI: Cyber. No cinema, esteve em Regras da Atração e Marcação Cerrada. Uma carreira que foi muito além do cais de Capeside, ainda que seja por ali que muita gente sempre vai lembrar dele.
A história do pestinha que implicava com uma palavra agora vem acompanhada da lembrança de um amigo, pai e marido querido. Williamson conseguiu fazer humor sem diminuir a trajetória de Van Der Beek. E talvez esse seja o jeito mais bonito de recordar alguém: guardar as grandes conquistas, mas também aquelas pequenas histórias que fazem a pessoa parecer presente por mais um instante.
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