Matheus Nachtergaele entrevista no Festival do Rio sobre animação, cães e seu novo filme com Otto Guerra.
- Bacalhau, o vira-lata que rouba a cena
- Por que animação também é cinema
- O garoto que já pensava quadro a quadro
- Quando o filme chega ao circuito?
Bacalhau, o vira-lata que rouba a cena
Em O Filho da Puta, Matheus Nachtergaele dá voz a Bacalhau, um cachorro de três pernas que acompanha Ismael, personagem de Gabriel Martins, numa viagem em busca de um pai que ele nunca conheceu. A premissa tem cara de aventura, mas, segundo o ator, o filme também vira uma fábula sobre procurar o pai enquanto afirma a importância da maternidade. Já dá para imaginar que a estrada terá mais curvas emocionais do que um GPS preparado para uma viagem tranquila.
Nachtergaele conversou sobre o longa durante o Festival do Rio 2026 e descreveu Bacalhau como um vira-lata bem brasileiro: malandro, esperto e dono de uma sabedoria meio torta. O próprio ator compara o personagem a uma espécie de grilo falante sem filtro. É uma combinação promissora para um cão que, além de ter três pernas, parece ter opinião para dar sobre todo mundo.
O trabalho marca a terceira parceria do ator com o diretor Otto Guerra e a codiretora Érica Maradona. Antes, os dois lados colaboraram em Rocky & Hudson – Os Caubóis Gays e A Cidade dos Piratas, filme inspirado na obra de Laerte. Para Nachtergaele, a dublagem não é só emprestar uma voz pronta: o ritmo, o timbre e até as explosões vocais ajudam a definir o personagem antes que a animação esteja finalizada.
Por que animação também é cinema
Tem uma ideia interessante no que o ator fala sobre animação: cada voz influencia o que os animadores vão colocar na tela. É quase como interpretar uma marionete, só que a equipe inteira constrói os fios. Uma fala mais arranhada, uma pausa ou um grunhido podem virar parte da personalidade visual do personagem. No caso de Bacalhau, Nachtergaele deixou a voz propositalmente rouca para combinar com esse cachorro vivido, um veterano de muitas histórias.
Ele também defende que animação deve ser levada tão a sério quanto qualquer outro formato de cinema. E vai além: acredita que, em muitos casos, ela pode ser superior ao live-action, justamente porque cada quadro é pensado e escolhido artisticamente. Não é uma provocação contra filmes com atores de carne e osso. É um lembrete de que desenhar movimento exige uma precisão absurda. Fazer um personagem piscar pode parecer simples; fazer esse piscar contar algo sobre ele é outra conversa.
A experiência de gravar os latidos e rosnados também teve um lado prático. Nachtergaele contou que essas vocalizações mais guturais podem machucar a voz, então era melhor deixá-las para o fim do dia de gravação. A familiaridade ajuda: ele tem seis cachorros atualmente e já chegou a conviver com 28. Diz que reconhece quem está latindo e até percebe, pelo tom, se o recado é alerta, perigo ou saudade. Basicamente, uma central de atendimento canina dentro de casa.
O garoto que já pensava quadro a quadro
A ligação do ator com animação vem de antes da carreira no cinema. Quando era adolescente, desenhava e chegou a fazer um curso de animação no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, com Sérgio Tastaldi. O pai o levava de carro às aulas, e Nachtergaele produziu ali um curta em acetato, quadro por quadro. Na época, ainda não sabia que se tornaria ator, mas já estava aprendendo a olhar para o cinema como uma sequência de escolhas minúsculas.
Essa percepção continuou acompanhando seu trabalho diante das câmeras. Para ele, mesmo na era digital, o filme ainda nasce fotograma a fotograma. O ator até guarda uma teoria curiosa: um bom longa deveria continuar dizendo algo se fosse pausado em qualquer quadro aleatório. Não precisa ser bonito, porque às vezes a imagem quer ser feia mesmo; precisa carregar alguma coisa do filme. É uma régua exigente, mas combina com quem vê o cinema como mais do que uma história contada em linha reta.
Esse vínculo também aparece fora de O Filho da Puta. Nachtergaele contou que gravou a voz do protagonista de O Pinguim Tupiniquim, produção da Coala Filmes feita em stop-motion. O processo pode levar cerca de dois anos, mesmo que a participação vocal seja gravada muito antes. E, sim, ele ainda assiste a Bambi em DVD porque o clássico da Disney o faz chorar. A gente não julga: esse filme tem um talento especial para acertar bem no coração.
Quando o filme chega ao circuito?
O Filho da Puta foi exibido no Festival do Rio 2026, mas ainda não tem data anunciada para chegar ao circuito comercial brasileiro. A participação de Nachtergaele parece combinar com o espírito do projeto: uma interpretação vocal construída em conjunto com a animação, sem tratar dublagem como etapa automática ou secundária.
O melhor sinal é a mistura de aventura, humor adulto e personagens que parecem ter saído de uma esquina brasileira, não de uma fábrica de bichinhos simpáticos. Bacalhau não é apenas o cachorro que acompanha o protagonista; ele também funciona como comentarista da jornada, com a liberdade que só um vira-lata de três pernas e língua afiada poderia ter. Agora é esperar a estreia para descobrir se essa viagem encontra seu público fora do festival.
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