Monstro: A História de Lizzie Borden entre desejo e crime

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Monstro: A História de Lizzie Borden começa com uma casa sufocante e uma pergunta incômoda: quanto sofrimento basta para explicar alguém?

Uma casa que aperta

Em Fall River, Massachusetts, Lizzie Borden vive cercada por regras, silêncios e gente que parece ter esquecido como demonstrar afeto. Andrew, seu pai, mantém distância; Abby, a madrasta, transforma a convivência em um exercício de autoridade. Para Lizzie, até os pássaros que cria parecem oferecer mais companhia do que a família.

É nesse ambiente que a quarta temporada de Monstro, criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, arma seu tabuleiro. A casa não é só cenário de época: funciona como uma panela de pressão com cortinas bonitas. O crime que tornou o sobrenome Borden famoso paira no horizonte, mas a série prefere começar pelo isolamento que molda a protagonista.

A escolha funciona. Em vez de correr para o choque, a história mostra como uma rotina sem espaço para escolha pode fazer qualquer gesto de atenção parecer uma janela aberta. A questão é que, quando a produção começa a explicar Lizzie, às vezes parece querer defendê-la também.

Bridget muda o jogo

A chegada de Bridget Sullivan, empregada da família, altera o ritmo da casa. Interpretada por Vicky Krieps, ela escuta Lizzie, compartilha histórias e carrega uma experiência de mundo que a jovem não teve. A relação começa na confiança e ganha intimidade até se tornar amorosa.

É o vínculo entre as duas que dá à temporada seu coração mais interessante. Lizzie descobre desejos e possibilidades que a criação rígida mantinha fora de alcance. Bridget, por sua vez, oferece mais do que companhia: representa a chance de imaginar uma vida longe das paredes dos Borden.

Existe uma tensão boa nessa aproximação. Lizzie pertence à família que paga o salário de Bridget, mas também está sujeita às ordens dos adultos. As duas dividem o mesmo teto sem ocupar o mesmo lugar social. A série acerta ao deixar essas diferenças respirarem, sem reduzir o romance a uma fantasia de fuga fácil.

Simpatia tem preço

Ella Beatty interpreta Lizzie com vulnerabilidade e faz a gente entender a carência da personagem. O problema não é torná-la humana, e sim insistir tanto em conduzir nossa reação. Andrew e Abby acumulam crueldades, enquanto Lizzie recebe justificativa atrás de justificativa. A conta emocional fica previsível.

Personagens ligados a crimes famosos ficam mais instigantes quando suas contradições incomodam. Lizzie poderia ser fragilizada e ressentida, amorosa e egoísta, vítima de uma casa opressora sem virar automaticamente inocente de qualquer julgamento moral. Mas a série parece recear que o público se afaste dela se não explicar cada atitude.

Charlie Hunnam e Rebecca Hall ajudam a compor o desconforto familiar, mas seus papéis também ficam estreitos: ele negligencia, ela maltrata. Quando os conflitos se repetem sem revelar novas camadas, a tensão depende demais da espera pelo momento em que aquela rotina finalmente desaba.

O horror fica na memória

As leituras de Bridget sobre Elizabeth Báthory levam a temporada para castelos sombrios e histórias de sangue. Essas passagens mudam o tom e têm personalidade própria. Sarah Paulson também aparece como Aileen Wuornos, em cenas ambientadas décadas depois. É uma associação construída pela ficção da série, não uma ligação histórica comprovada entre as duas mulheres.

Essas fugas do núcleo principal são um tempero divertido, embora às vezes deem a impressão de que existe outra série mais curiosa disputando espaço com Lizzie. Já a trilha, com The Doors e The Runaways, injeta uma energia anacrônica que combina com a liberdade que a adaptação busca para suas personagens.

Monstro: A História de Lizzie Borden tem elenco forte, atmosfera opressiva e uma relação central capaz de sustentar o interesse. Só perde força quando troca ambiguidade por defesa antecipada. No fim, a pergunta não é apenas o que aconteceu naquela casa, mas se a série confia que a gente consegue olhar para Lizzie sem receber instruções sobre o que sentir.

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