O jogo da Epic com a Disney foi adiado, e a equipe recebeu uma ordem que muda o rumo do projeto: usar IA em praticamente toda a produção.
- Adiado, mas não cancelado
- IA no comando da produção
- Bastidores em alerta
- O que isso significa para o jogo?
Adiado, mas não cancelado
Antes de tudo, vale ajustar a manchete: pelas informações divulgadas, o projeto não foi oficialmente cancelado. O que aconteceu foi um adiamento sem nova data anunciada. O game, um shooter que reuniria personagens da Marvel e de Star Wars, era esperado para março, mas agora está sem previsão pública de lançamento.
A notícia foi reportada por Jason Schreier, da Bloomberg, com base em fontes familiarizadas com o desenvolvimento. E o motivo para a mudança de rota não é exatamente pequeno: a Epic teria subestimado a quantidade de pessoas e o tempo necessários para tirar o jogo do papel.
É uma combinação que acende alerta. Estamos falando de um projeto com marcas gigantes, personagens reconhecidos no mundo inteiro e uma parceria que começou com investimento bilionário. Não é o tipo de produção em que dá para simplesmente colocar um capacete de stormtrooper no problema e fingir que ele desapareceu.
IA no comando da produção
Segundo o relato, desenvolvedores foram orientados a adotar um modelo chamado internamente de “AI first”. Ferramentas como o Claude, da Anthropic, entrariam no processo de criação e desenvolvimento, enquanto os profissionais humanos ficariam mais concentrados em supervisionar e dirigir o trabalho.
Uma mensagem interna atribuída a um dos diretores do jogo teria sido ainda mais direta: “Chega de código escrito à mão”. A mesma comunicação dizia que a arte seria feita com fluxos de trabalho totalmente baseados em inteligência artificial. Se essa diretriz for aplicada como descrita, não estamos falando só de usar IA para acelerar tarefas pontuais, mas de colocar a tecnologia no centro da produção.
A Epic, por sua vez, descreveu a iniciativa como desenvolvimento acelerado por IA, mas liderado por seus desenvolvedores, que continuariam sendo os responsáveis pelas decisões criativas. É uma diferença importante no discurso. Usar ferramentas para ajudar uma equipe não é automaticamente o mesmo que substituir etapas inteiras do trabalho por resultados gerados por modelos.
Bastidores em alerta
A reação interna relatada não foi de empolgação unânime. Em uma chamada de vídeo, parte da equipe teria demonstrado surpresa, feito piadas sobre pedir à própria IA para corrigir erros que ela criou e manifestado a esperança de que a decisão não fosse levada adiante. Também houve preocupação de que a estratégia não desse certo.
Essa preocupação não surge do nada. Código produzido por IA pode exigir revisão, testes e correções, e imagem gerada não resolve sozinha questões de direção de arte, consistência visual ou identidade. Em um jogo com universos tão diferentes quanto Marvel e Star Wars, manter tudo coerente já seria um baita trabalho mesmo sem adicionar uma nova camada de ferramentas ao processo.
Também pesa o contexto da empresa. Em março, a Epic anunciou o corte de mil empregos, citando, entre outros fatores, vendas mais lentas de Fortnite. Isso não prova que uma decisão específica tenha relação direta com os cortes, mas ajuda a entender por que uma aposta em produtividade e redução de tempo pode ganhar força justamente agora.
O que isso significa para o jogo?
A Disney investiu US$ 1,5 bilhão na Epic em 2024, em troca de participação acionária, e as empresas anunciaram uma parceria para vários jogos. O shooter seria o primeiro projeto dessa colaboração. A Disney, procurada pela Bloomberg, não respondeu imediatamente. Por enquanto, portanto, não há uma explicação pública da empresa sobre o adiamento ou sobre o uso de IA.
O ponto não é decretar que toda ferramenta de inteligência artificial vai arruinar um jogo. Tecnologia pode ajudar equipes a experimentar ideias, automatizar tarefas repetitivas e ganhar tempo. A questão é o que acontece quando a pressa para acelerar vira uma regra ampla, especialmente num projeto que já estaria atrasado e precisava de mais gente e mais tempo do que a Epic previa.
Um jogo bom não nasce só de assets prontos e linhas de código entregues depressa. Ele precisa de escolhas, ajustes e uma equipe capaz de perceber quando algo simplesmente não funciona. IA pode fazer parte desse processo, mas ainda falta saber se, nesse caso, será uma ferramenta nas mãos dos criadores ou se os criadores terão de se adaptar ao que a ferramenta consegue entregar. E essa resposta, por enquanto, continua sem data marcada.
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