Yellow Cake: Tânia Maria brilha no sci-fi do sertão

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Yellow Cake mistura ficção científica e sátira no sertão paraibano, com Tânia Maria entre os grandes destaques.

Ficção científica com cara de sertão

Quando a gente pensa em ficção científica, é comum imaginar naves, cidades metálicas e alguém apertando botões num laboratório impecavelmente limpo. Yellow Cake prefere outro caminho: coloca uma experiência nuclear no sertão da Paraíba e mistura o absurdo da premissa a questões bem brasileiras. Convenhamos, o gênero fica mais interessante quando sai do piloto automático.

Dirigido por Tiago Melo, o longa se passa em Picuí e aposta numa combinação pouco usual de ficção científica, sátira e elementos da cultura nordestina. Não é só trocar uma paisagem estrangeira por outra brasileira. A região, seus moradores e suas histórias fazem parte do que move a narrativa, dando ao filme uma identidade própria em vez de servir apenas como pano de fundo exótico.

A proposta pode lembrar Bacurau na disposição de usar códigos de gênero para falar de questões locais, embora cada filme siga sua própria rota. Aqui, o ponto de partida envolve ciência, mineração e a relação entre conhecimento técnico e saberes ancestrais. É uma mistura que pode render tanto humor quanto tensão, desde que o roteiro consiga manter os ingredientes na mesma panela.

O experimento que pode dar muito errado

Na história, um grupo de cientistas desenvolve um projeto secreto para combater o Aedes aegypti, mosquito que transmite dengue. O plano, batizado de Yellow Cake, usa urânio extraído da região para esterilizar os insetos e tentar interromper a reprodução. Se você pensou “isso parece uma péssima ideia”, bom, é justamente aí que a premissa chama atenção.

Rejane Faria interpreta Rúbia Ribeiro, uma física nuclear envolvida no projeto. O filme parte de uma missão que, em tese, busca resolver um problema de saúde pública, mas abre espaço para perguntas sobre exploração de recursos e sobre quem controla os benefícios e os riscos de uma iniciativa desse tipo. A sátira pode cutucar essas contradições sem transformar a trama numa aula com jaleco e quadro branco.

O projeto também conversa com a história da região. A produção nasceu do curta documental Urânio Picuí, de Tiago Melo e Antônio Carrilho, sobre a exploração de terras raras brasileiras por norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. É um passado que dá lastro à ficção e ajuda a entender por que o urânio não está ali só para deixar a sinopse mais chamativa.

Tânia Maria rouba a cena

Depois de chamar atenção em O Agente Secreto, Tânia Maria volta às telas com mais uma oportunidade de mostrar o carisma que conquistou o público. Ela é apontada como um dos grandes destaques do longa, capaz de dar personalidade a momentos que poderiam se perder no meio de tantos elementos extravagantes. Não é pouca coisa quando a história tem ciência nuclear, mosquito e sátira disputando espaço.

O mais importante é que sua presença reforça uma conversa que o cinema brasileiro precisa manter: talento não deveria aparecer apenas em papéis pontuais. Tânia Maria tem uma força cênica que merece ser explorada em projetos variados, e Yellow Cake parece oferecer um universo bem diferente do que vimos em seu trabalho anterior. Para quem gosta de acompanhar artistas encontrando novos registros, esse já é um motivo para ficar de olho.

Um cinema nacional sem medo de arriscar

O longa também entra numa conversa maior sobre o que o cinema brasileiro pode ser. Drama social e comédia têm seu espaço, claro, mas não precisam ser os únicos caminhos reconhecíveis para uma produção nacional. Misturar ficção científica, fantasia e sátira com temas ligados à realidade brasileira é uma aposta que ajuda a ampliar o repertório, sem exigir que a história abandone suas raízes para parecer “universal”.

Esse tipo de ousadia não garante que tudo vai funcionar perfeitamente. Misturar gêneros é como montar uma tripulação de chapéus de palha: cada integrante pode ser ótimo sozinho, mas a aventura depende de como o grupo se encaixa. Ainda assim, a premissa de Yellow Cake tem personalidade e uma ligação concreta com o lugar onde se passa. Isso já torna o projeto mais curioso do que uma ficção científica genérica com nomes trocados.

Quando e onde assistir

Yellow Cake teve estreia mundial no Festival de Roterdã e também integra a programação do Festival de Sitges, na Espanha. A chegada aos cinemas brasileiros está marcada para 26 de novembro, com distribuição da Olhar Filmes. O elenco reúne ainda Valmir do Côco, Spencer Callahan e Wolfgang Pannek.

Com 1h37 de duração e classificação indicativa de 14 anos, o filme tem uma combinação daquelas que dá vontade de acompanhar: uma ideia improvável, um recorte regional pouco explorado pela ficção científica e Tânia Maria no centro das atenções. Se Tiago Melo conseguir equilibrar o humor, a crítica e o fantástico, o sertão paraibano pode virar um dos cenários mais inesperados do nosso cinema neste ano.

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