Rosebush Pruning: intimidade que fala alto

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Rosebush Pruning chega ao Festival do Rio com uma ideia que Karim Aïnouz leva a sério: um gesto pode revelar mais que um discurso inteiro.

O cineasta cearense apresentou o longa na pré-estreia nacional durante o Festival do Rio 2026. Seu segundo filme em inglês reúne nomes como Callum Turner, Riley Keough, Elle Fanning, Jamie Bell e Pamela Anderson em uma história de família aristocrática, relações inquietantes e uma nova namorada que mexe com as regras daquele ambiente.

Mas, na conversa sobre o filme, Aïnouz não trata o inglês nem o elenco internacional como motivo para deixar sua identidade na porta. Pelo contrário: a aposta é preservar o jeito de trabalhar que já conhece e descobrir até onde ele pode levá-lo em outro cenário.

Um filme entre o teatro e a sátira

Em Rosebush Pruning, o tom não fica parado num único lugar. A história se aproxima da sátira, com personagens e situações que podem soar artificiais, mas Aïnouz queria que aquelas figuras ainda parecessem humanas, com contradições e emoções reconhecíveis. É um equilíbrio delicado: exagerar sem transformar todo mundo em caricatura.

O diretor compara essa busca a misturar ritmos diferentes. A imagem é boa porque ajuda a entender o desafio: não basta escolher entre naturalismo e teatralidade, como se fossem botões de controle. O filme tenta fazer os dois conversarem, e o elenco foi escolhido também pela disposição de experimentar um registro fora do automático.

Essa liberdade parece ter sido parte do convite para atores acostumados a trabalhos de grande visibilidade. Para Aïnouz, o texto singular e a curiosidade sobre seu método criaram uma combinação atraente. Entrar numa zona de risco artístico, em vez de repetir uma fórmula confortável, pode ser justamente o que torna um projeto estimulante.

O corpo também conta a história

O erotismo costuma chamar atenção quando se fala dos filmes recentes de Aïnouz, mas o cineasta propõe olhar além da ideia de cena de sexo. Para ele, intimidade envolve presença, movimento e a maneira como os corpos ocupam a tela. Um silêncio, uma aproximação ou um desconforto podem contar sobre alguém sem que o personagem precise explicar o que sente.

É uma defesa do cinema que confia na imagem. Não porque diálogo seja dispensável, mas porque há coisas que a fala organiza demais. Pense em quantas vezes um personagem diz que está bem enquanto sua postura entrega o contrário. A câmera pode ficar com essa contradição, sem precisar convocar um monólogo para traduzir cada sentimento.

Existe aí um contraste interessante: Rosebush Pruning é bastante escrito e tem bastante diálogo. Nesse contexto, as cenas de intimidade ganham outra função. Elas abrem espaço para o corpo respirar dentro de uma narrativa falada, criando uma mistura que o diretor considera central para a identidade do longa.

Dirigir sem trocar de pele

Este é o segundo filme em inglês de Aïnouz, depois de Firebrand, mas ele não vê a mudança de idioma como um motivo para imitar o cinema de fora. Sua lógica é direta: se a produção procura um diretor brasileiro, faz sentido que queira também a perspectiva e o método que vêm com ele.

Isso passa por reservar tempo para ensaios, conversar sobre personagens e percorrer as cenas com os atores. O cineasta vê essa preparação como parte importante do cinema brasileiro contemporâneo, especialmente na construção de personagens que parecem existir para além da trama. Num ecossistema em que intérpretes podem dividir o calendário entre vários projetos, garantir concentração também vira trabalho de direção.

Há ainda a barreira prática da língua. Mesmo com fluência, dirigir emoções num idioma estrangeiro exige escolher palavras com cuidado. Aïnouz descreve a direção como algo ligado à intuição, e traduzir essa intuição sem perder clareza é uma dificuldade real, não um detalhe de bastidor.

O encontro com o público brasileiro

Para Aïnouz, levar o filme às salas brasileiras tem um peso especial. Firebrand chegou ao país diretamente pelo streaming, sem lançamento nos cinemas, experiência que o deixou frustrado por não poder compartilhar o trabalho em uma sala escura. Com Rosebush Pruning, ele queria que o público daqui tivesse essa oportunidade.

Também existe uma curiosidade legítima: como uma obra filmada fora, falada em inglês e legendada em português será recebida por quem acompanha seu cinema brasileiro? A sessão no Festival do Rio trouxe uma sensação peculiar ao diretor, que se viu diante de um filme seu com outra língua e outro contexto cultural. Às vezes, até quem fez a obra precisa de um instante para reconhecê-la.

A resposta do público ainda é parte da aventura. E talvez esse seja o melhor jeito de chegar a Rosebush Pruning: esperando um filme que combina palavra, teatralidade e intimidade, sem exigir que uma dessas linguagens explique a outra. Afinal, há sentimentos que funcionam melhor quando a câmera observa e deixa o silêncio fazer seu trabalho.

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