Benito di Paula: adeus a uma voz do samba-joia

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Benito di Paula morreu aos 84 anos, deixando canções que atravessaram gerações e ajudaram a dar forma ao samba-joia.

A despedida de Benito di Paula

O cantor, compositor e pianista Benito di Paula morreu no domingo, 18 de outubro, aos 84 anos, em São Paulo. Ele estava internado no Hospital 9 de Julho, e a informação foi confirmada por sua equipe. O artista tratava um câncer de próstata havia cerca de um ano.

Nascido Uday Vellozo, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, em 28 de novembro de 1941, Benito construiu uma carreira de mais de cinco décadas. Para muita gente, seu nome vem acompanhado imediatamente de uma melodia conhecida, daquelas que começam a tocar e logo encontram alguém na sala cantando junto.

A despedida está marcada para terça-feira, 20 de outubro, das 9h às 15h, no Theatro Municipal de São Paulo, com acesso aberto ao público. O sepultamento deve ocorrer às 17h, no Cemitério Morumby, em cerimônia reservada à família.

Um som com identidade própria

Benito não dependia apenas da voz para ser reconhecido. Os cabelos longos, o bigode marcante e o piano compunham uma presença artística imediatamente identificável. Mas o que realmente segurava a atenção era a mistura musical: samba, piano, bolero e romantismo, combinados sem a preocupação de caber numa caixinha certinha.

Essa personalidade ajudou a consolidar o chamado samba-joia, vertente popular do samba que ganhou força especialmente nos anos 1970. O rótulo pode até soar como nome de subgênero tirado de uma conversa de bastidor, mas a música de Benito tinha uma qualidade difícil de falsificar: era direta, sentimental e feita para chegar ao público sem pedir senha.

Seu estilo apostava no encontro entre a cadência do samba e arranjos guiados pelo piano. Em vez de tratar o romantismo como algo menor, Benito o colocava no centro da composição. O resultado era um som próprio, fácil de identificar e capaz de transitar entre a roda de samba, o rádio e a lembrança particular de cada ouvinte.

Canções que viraram memória afetiva

“Retalhos de Cetim” está entre os maiores sucessos de sua trajetória. É uma daquelas músicas que parecem guardar uma cena inteira dentro de poucos versos: basta ouvir os primeiros acordes para muita gente voltar a um lugar, a uma época ou a uma pessoa. A força da canção não depende de uma moda passageira; ela continua encontrando novos ouvidos.

Já “Charlie Brown” mostrou outro lado do alcance popular de Benito. O título ficou gravado na memória de diferentes gerações e a faixa segue sendo uma das mais lembradas de seu repertório. É um bom exemplo de como uma canção pode continuar circulando muito depois de seu lançamento, sem precisar de uma campanha para reaparecer na conversa.

Também fazem parte desse repertório “Mulher Brasileira” e “Do Jeito Que a Vida Quer”. Juntas, essas músicas ajudam a entender por que Benito não ficou associado a um único sucesso. Sua obra tem variedade, mas mantém uma assinatura: melodias acessíveis, sentimento à flor da pele e um jeito particular de aproximar o samba da canção romântica.

Um legado que segue em circulação

Quando um artista parte, é comum que as pessoas voltem às músicas. No caso de Benito di Paula, esse reencontro não parece apenas uma homenagem de ocasião. Suas canções já ocupam um espaço cotidiano na cultura brasileira, daquele tipo que atravessa gerações sem precisar que todo mundo saiba explicar a história completa por trás delas.

O legado também está na identidade que ele construiu. Benito levou o piano para o centro de um samba popular, abraçou o romantismo sem constrangimento e criou um visual tão reconhecível quanto seu repertório. Em tempos em que muita coisa é feita para durar até a próxima tendência, essa combinação de personalidade e canções que permanecem tem valor especial.

Fica a música, que é uma forma bonita e concreta de continuar perto de alguém. “Retalhos de Cetim”, “Charlie Brown” e tantas outras faixas seguem disponíveis para quem já as conhece e para quem ainda vai descobrir esse universo. Benito di Paula deixa uma marca própria na história da música brasileira, e sua voz continuará encontrando espaço onde houver alguém disposto a apertar o play.

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