You Can See Everything já chegou fazendo barulho: o documentário sobre Elizabeth Holmes surpreendeu nas bilheterias e entrou na conversa pelo Oscar 2027.
- Um documentário fora da curva
- O que o filme mostra
- A corrida pelo Oscar
- O público entrou na história
- E agora?
Um documentário fora da curva
Documentário costuma ter uma jornada mais ingrata nas salas de cinema do que blockbuster de super-herói. Então, quando um longa de quase três horas abre com mais de US$ 15 milhões nos Estados Unidos, vale prestar atenção. You Can See Everything, produção da A24 sobre a controversa empresária Elizabeth Holmes, não apenas chamou a atenção: virou um dos assuntos quentes da temporada de premiações.
O filme estreou em 16 de outubro, em cerca de 855 salas, e alcançou a maior abertura para um documentário não musical desde Fahrenheit 11 de Setembro, de Michael Moore, lançado em 2004. Não é pouca coisa para uma obra que não tem dinossauros, sabres de luz ou uma cena pós-créditos prometendo continuação.
A recepção também ajudou a empurrar o título para o centro da conversa. Segundo os dados divulgados, o documentário aparece com 98% de aprovação da crítica e do público no Rotten Tomatoes. É uma combinação poderosa para uma campanha de Oscar: boa repercussão entre críticos e um resultado comercial que mostra que existe plateia para além do circuito cinéfilo.
O que o filme mostra
Dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, o longa acompanha Holmes nos últimos dias com a família antes de ela começar a cumprir sua pena de prisão. A produção foi desenvolvida em segredo durante anos e fez sua estreia no Festival de Telluride, onde começou a ganhar atenção pela abordagem pouco convencional.
O tema já vem carregado de tensão. Holmes foi uma das figuras mais comentadas do Vale do Silício, e a história de sua empresa Theranos virou um caso emblemático sobre promessas tecnológicas, poder e confiança. Em vez de tratar a personagem como uma curiosidade distante, o documentário escolhe um recorte íntimo, num momento decisivo de sua vida.
Essa proximidade pode ser justamente o que divide opiniões. Um retrato pessoal não equivale automaticamente a uma absolvição, mas também exige cuidado para não transformar uma história real em espetáculo fácil. A curiosidade do público está garantida; o desafio é o filme dar contexto e deixar que os fatos sustentem o impacto.
A corrida pelo Oscar
O possível feito histórico está na categoria de Melhor Filme. Em quase um século de Oscar, nenhum documentário recebeu uma indicação nessa disputa principal. A Academia mantém uma categoria própria para documentários desde 1942, mas isso nunca abriu a porta da principal competição.
O caso mais próximo citado é Chang: A Drama of the Wilderness, que concorreu na primeira edição, em 1929, a Melhor Filme Único e Artístico. A categoria durou apenas duas edições e não corresponde à atual disputa de Melhor Filme. Ou seja: se You Can See Everything conseguir a indicação, não será apenas uma curiosidade de rodapé para a história do Oscar.
O burburinho ganhou força após sessões para integrantes da Academia. Uma exibição no Samuel Goldwyn Theater reuniu cerca de 530 pessoas e terminou com aplausos entusiasmados para os diretores. Isso não garante votos, claro, mas ajuda a entender por que a A24 já estuda caminhos para a campanha.
O público entrou na história
Além de Melhor Filme, o documentário pode aparecer em categorias como Direção, Montagem e Trilha Sonora Original. Há ainda uma possibilidade particularmente incomum: uma participação na segunda metade do longa poderia abrir espaço para uma indicação de atuação coadjuvante ligada a um documentário. Por enquanto, é uma hipótese, não uma indicação confirmada.
O filme também recebeu cinco indicações ao Critics Choice Documentary Awards, outro sinal de que sua campanha tem fôlego. Ainda assim, a temporada está longe de ter dono. A Odisseia, de Christopher Nolan, aparece entre os favoritos, e A Bola Preta também é apontado como possível concorrente. A disputa pode mudar bastante quando mais filmes forem vistos e os votantes começarem a escolher seus favoritos.
E agora?
O maior trunfo de You Can See Everything é ter transformado um assunto já conhecido numa experiência de cinema capaz de atrair público e provocar conversa. Uma indicação a Melhor Filme seria histórica, mas a campanha ainda precisa converter entusiasmo em votos. Oscar é maratona, não corrida de cem metros, mesmo quando a largada vem com uma bilheteria dessas.
No Brasil, a distribuição ficará com a Sony Pictures, mas ainda não há data confirmada nem definição sobre estreia nos cinemas ou no streaming. Até lá, o documentário segue numa posição curiosa: é uma história real sobre tecnologia e ambição que agora encara o teste de uma das maiores instituições de Hollywood. E, convenhamos, a Academia adora uma narrativa sobre quebrar regras. Resta saber se vai mesmo abrir essa porta.
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