Overman: por que vestir o herói assustou Caco Ciocler

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Overman ganhou corpo no set, mas vestir o uniforme pela primeira vez deixou Caco Ciocler assustado.

O uniforme mudou o jogo

Interpretar um super-herói costuma vir acompanhado de poses grandiosas, frases de efeito e, claro, um figurino que não dá para ignorar. Para Caco Ciocler, porém, vestir a roupa do Overman foi mais do que entrar no visual do personagem: foi perceber que a atuação precisava mudar junto com ele.

Em conversa com o Omelete, o ator contou que o primeiro contato com o traje foi assustador. A equipe imaginava uma interpretação mais próxima de um registro cinematográfico convencional, mas a roupa impunha outra presença. Não parecia apenas um figurino sobre o corpo; era como se o próprio corpo do personagem tivesse uma forma diferente de ocupar a cena.

Daí veio uma pergunta bem prática: como alguém com aquele físico fala e se movimenta? Até pegar um copo de água exigia outra lógica, segundo Ciocler. O gesto simples precisava envolver o corpo inteiro. A voz também não podia soar como a de uma pessoa comum vestindo uma fantasia qualquer. O uniforme acabou funcionando como uma bússola meio inesperada para encontrar o tom do herói.

Um herói fora do eixo

O Overman dos quadrinhos de Laerte não chega ao filme no auge da carreira. A trama encontra o personagem beberrão e mulherengo, até que um novo governador, vivido por Otávio Müller, o convida para se tornar o herói oficial do Estado. A proposta, porém, pode esconder uma armadilha para a reputação do protagonista.

É uma premissa que combina com um super-herói pouco interessado em seguir o manual dos salvadores do mundo. E aqui está uma das ideias mais saborosas do personagem: ele tenta corresponder a uma imagem de herói que talvez não tenha nada a ver com quem realmente é. Em vez de vender perfeição e controle, Overman parece existir naquele atrito entre pose e realidade.

Ciocler percebeu essa contradição também durante o próprio processo de atuação. Ao rever as cenas, ele conseguia identificar os momentos em que ainda estava procurando o personagem e aqueles em que já se sentia mais seguro. A construção não aconteceu de uma vez, nem nasceu só do figurino. O encontro com os outros atores foi essencial para entender quem era aquele sujeito em cena.

Quando o improviso vira história

Tem algo de muito coerente nisso: um personagem que não consegue ser exatamente o que imagina, interpretado por um ator que também está tateando para descobrir como fazê-lo existir. Ciocler chegou a dizer que essa dificuldade conversa diretamente com a espinha dorsal do filme. O desencontro não foi necessariamente um obstáculo; acabou refletindo o próprio conflito de Overman.

O ator também comentou que algumas cenas precisaram ser repensadas quando a equipe entendeu melhor o resultado do que havia sido filmado. Segundo ele, o diretor Tomás Portela, a produtora Iafa Britz e o restante do time trabalharam para transformar problemas de execução em elementos que fizessem sentido dentro da história. Ciocler preferiu não revelar quais momentos passaram por mudanças, deixando a descoberta para quem assistir.

Esse tipo de ajuste é menos glamouroso do que um grande anúncio de poderes ou uma sequência de ação, mas diz bastante sobre a produção. Nem sempre o plano inicial sobrevive ao encontro com o set. Às vezes, a saída é escutar o material, reorganizar as peças e encontrar um caminho que faça a cena funcionar. Pelo relato do ator, essa busca também ajudou a consolidar o tom do longa.

O que esperar do filme

Overman: O Filme tem estreia prevista nos cinemas brasileiros para 22 de outubro. Além de adaptar um personagem criado por Laerte, a produção aposta numa figura que parece render mais justamente quando não se encaixa no molde tradicional de super-herói. Nada de invulnerabilidade emocional e discurso impecável: aqui, a tentativa de parecer heroico pode ser tão importante quanto conseguir sê-lo.

O relato de Ciocler deixa uma curiosidade no ar. Se o uniforme exigiu outra voz, outros gestos e uma nova maneira de ocupar espaço, como essa presença vai funcionar quando o personagem estiver diante do público? A resposta só chega na sala de cinema, mas a ideia de um herói atrapalhado pela própria imagem já tem um charme particular. Em tempos de capas, multiversos e destinos grandiosos, um sujeito que ainda está tentando entender o próprio papel pode ser uma mudança de ritmo bem-vinda.

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