Cliff Booth: Fincher enxugou o roteiro de Tarantino

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Cliff Booth vai voltar em uma aventura escrita por Quentin Tarantino, mas David Fincher aparou bastante o roteiro antes das câmeras começarem a rodar.

Um roteiro com tamanho de dois filmes

As Novas Desventuras de Cliff Booth começou com um roteiro de 230 páginas. Sim, 230. Para ter uma ideia, isso não é exatamente o tipo de texto que você lê numa sentada só enquanto espera o próximo episódio da sua série. Na prática, o material tinha histórias suficientes para ocupar o espaço de dois filmes.

O roteiro é de Tarantino e retoma o personagem apresentado em Era Uma Vez em… Hollywood, longa de 2019. A novidade é que Cliff agora ganha uma aventura própria, conduzida por Fincher e estrelada novamente por Brad Pitt. O projeto junta dois cineastas com personalidades fortes, então a pergunta inevitável é: quanto de cada um aparece na versão final?

O corte de Fincher

Em entrevista à revista Empire, Fincher contou que cortou 60 páginas do texto original. Mesmo depois dessa boa tesourada, o filme ficou com cerca de 2h20min. Ou seja, a decisão não transformou a história num passeio rápido: só ajudou a fazer caber uma narrativa que, segundo o diretor, equivalia praticamente a dois longas.

Fincher descreveu o processo como uma busca pelo ponto de encontro entre o que ele queria fazer, o que Pitt queria fazer e o que Tarantino havia escrito. É uma forma diplomática de falar de uma negociação criativa que deve ter dado conversa. Afinal, quando um roteiro tão extenso passa pelas mãos de três nomes com visões próprias, cortar páginas não é só diminuir a duração: também significa escolher qual filme essa história quer ser.

Não sabemos quais cenas ficaram pelo caminho, então qualquer tentativa de adivinhar seria fanfic de bastidor. Mas o número chama atenção por si só. Sessenta páginas a menos é uma mudança considerável, ainda que o resultado continue com fôlego de produção longa e espaço para acompanhar Cliff em uma nova fase.

Cliff em Hollywood, de novo

A história se passa em 1977 e pode ser acompanhada sem depender diretamente do filme anterior. Cliff trabalha como barman e projecionista, mas suas habilidades acabam levando-o a resolver problemas de gente importante de Hollywood. É uma continuação de universo, não necessariamente uma continuação que exige prova de memória sobre cada detalhe da trama de 2019.

Essa escolha tem potencial. Cliff sempre funcionou como um sujeito que parece estar de passagem, mas conhece os bastidores melhor do que muita gente que vive sob os holofotes. Colocá-lo perto de estrelas e dos problemas que elas tentam esconder combina com o personagem. E, convenhamos, ver Brad Pitt de volta nesse papel já é motivo suficiente para a curiosidade bater à porta.

Uma trama cheia de nomes

O ponto de partida é uma ligação de Karen Crosby, agente de talentos interpretada por Elizabeth Debicki. Ela trabalha para Charlie Peters, astro da televisão vivido por Scott Caan e conhecido por fazer as próprias acrobacias. Ao se aproximar do ator e de seu círculo, Cliff acaba envolvido numa trama criminal que mistura violência, ambição e disputas nos bastidores do cinema.

Entre as figuras que cruzam o caminho do protagonista estão Toni, esposa de Charlie, interpretada por Carla Gugino, e Roderick “Hot Rod” Harrison, ex-jogador de futebol vivido por Yahya Abdul-Mateen II. Peter Weller, Matt Groove e JB Tadena também fazem parte do elenco. É uma combinação de personagens que promete colocar Cliff no meio de um ambiente cheio de egos, interesses e gente que provavelmente não quer resolver os próprios problemas com uma conversa tranquila.

Quando assistir

As Novas Desventuras de Cliff Booth estreia nos cinemas IMAX em 25 de novembro e chega à Netflix em 23 de dezembro. A janela entre a sala de cinema e o streaming é curta, mas quem puder ver Fincher e Tarantino em tela grande terá uma boa desculpa para conferir como essa história sobreviveu à edição.

O corte de 60 páginas levanta uma curiosidade deliciosa, mas não é garantia de que o filme vá parecer enxuto. Com 2h20min, ainda há espaço para conversa, tensão e aquele tipo de desvio narrativo que Tarantino adora. Agora resta descobrir se a mistura das três visões vai render uma aventura redonda ou se ainda dá para sentir as páginas que ficaram no chão da sala de edição.

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