Jafar Panahi condenado: cinema sob pressão no Irã

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Jafar Panahi foi condenado a cinco anos e um mês de prisão à revelia no Irã. A decisão também restringe suas viagens e o uso de redes sociais.

O que diz a sentença

O cineasta iraniano Jafar Panahi recebeu uma nova condenação da 26ª Vara do Tribunal Revolucionário de Teerã. Além dos cinco anos e um mês de prisão, a sentença prevê dois anos de proibição de viagens e de uso de redes sociais. A decisão foi tomada à revelia, ou seja, sem a presença do diretor no julgamento.

A informação foi divulgada pelo jornalista de cinema Mansour Jahani e confirmada pelo advogado de Panahi, Mostafa Nili. Segundo Nili, as contas bancárias do cineasta foram congeladas na semana anterior. Ao buscar esclarecimentos junto à Unidade de Execução de Sentenças do Ministério Público da Cultura e Mídia, a equipe jurídica soube da nova pena.

O caso foi reportado também pelo IndieWire. A notícia chama atenção não só pelo tamanho da sentença, mas por atingir um diretor que já passou décadas enfrentando restrições para fazer e exibir seus filmes.

Uma notificação que não chegou

De acordo com as autoridades, Panahi não teria sido localizado porque estava fora do Irã. O advogado contesta essa justificativa: afirma que o cineasta está no país desde que voltou, em março, e que chegou a comparecer a outra unidade do órgão em setembro. Nili também diz que seu cliente não foi informado da data da audiência.

É uma diferença importante. Uma condenação sem que o acusado saiba quando será julgado levanta dúvidas sérias sobre o processo e sobre a possibilidade de defesa. Por enquanto, essas informações vêm do advogado e das autoridades citadas nos relatos, e não há, no material divulgado, um posicionamento detalhado do tribunal explicando a divergência.

O congelamento das contas bancárias foi o que levou a equipe de Panahi a procurar o Ministério Público. Na prática, uma medida financeira acabou funcionando como pista de que havia uma nova decisão judicial. Não é exatamente o tipo de reviravolta que alguém gostaria de descobrir ao tentar resolver a vida no banco.

Filmes feitos contra as regras

Panahi é um dos nomes mais reconhecidos do cinema iraniano contemporâneo e já foi premiado em alguns dos festivais mais importantes do mundo. O Círculo venceu o Leão de Ouro em Veneza, em 2000, e Táxi levou o Urso de Ouro de Berlim, em 2015. Seu trabalho costuma olhar para as contradições sociais do Irã com uma abordagem próxima do cotidiano, sem transformar seus personagens em peças de discurso.

Essa trajetória acontece em meio a uma longa sequência de punições. Em 2010, Panahi foi sentenciado a seis anos de prisão e proibido de filmar por 20 anos. Em dezembro de 2025, recebeu mais um ano de pena sob a acusação de “atividade de propaganda” contra o Irã. Ainda assim, continuou encontrando maneiras de filmar, muitas vezes trabalhando clandestinamente e incorporando as próprias limitações à linguagem de suas obras.

É um daqueles casos em que a realidade parece determinada a interferir no roteiro. Só que, ao contrário de uma trama de suspense, não há distância segura entre a história e a vida do diretor. As restrições não são um recurso estilístico escolhido livremente: têm consequências concretas para quem filma e para quem trabalha com ele.

O que essa condenação significa

Panahi estava nos Estados Unidos promovendo Foi Apenas Um Acidente quando recebeu a sentença de um ano em dezembro de 2025. O longa venceu a Palma de Ouro em Cannes, em maio daquele ano, e rendeu ao diretor indicações ao Oscar de Melhor Filme Internacional e Melhor Roteiro Original. A nova condenação chega, portanto, enquanto seu trabalho circula em palcos internacionais e atrai atenção para o cinema iraniano.

Prêmios não blindam ninguém contra decisões de um governo, mas ajudam a tornar mais difícil que um caso assim passe despercebido. E a repercussão também amplia uma pergunta incômoda: como apoiar a liberdade artística quando fazer um filme pode resultar em prisão, proibição de trabalho e isolamento das redes?

Por ora, o que se sabe é que a decisão foi anunciada sem que Panahi estivesse presente e que seu advogado contesta a alegação de que ele não foi encontrado. O próximo capítulo depende dos passos legais da defesa e de como as autoridades vão lidar com a própria versão dos fatos. A carreira do diretor já mostrou que ele não costuma abandonar o cinema diante de uma proibição. Mas isso não torna aceitável o preço que continua sendo cobrado por filmar.

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