A remasterização de Os Demônios chega ao Brasil com apresentação de Kleber Mendonça Filho.
- A sessão especial em Recife
- Um filme que não foi domado
- O caso de Loudun no centro da história
- Por que ver na tela grande?
A sessão especial em Recife
Tem filme que volta aos cinemas como quem abre uma janela para outra época. Os Demônios, de Ken Russell, retorna em uma versão restaurada em 4K, sem cortes, e terá uma exibição brasileira no dia 31 de outubro, durante o festival Janela de Cinema de Recife. A sessão será apresentada por Kleber Mendonça Filho, que fará uma introdução antes da projeção.
A escolha combina bem: estamos falando de um cineasta brasileiro conhecido por tratar o cinema como experiência, não só como conteúdo para deixar rodando enquanto a gente mexe no celular. E o filme de Russell pede atenção. É provocador, excessivo e feito para incomodar, daqueles que continuam rendendo conversa quando as luzes acendem.
A iniciativa também prevê exibições em cidades selecionadas com introduções de outros nomes importantes do cinema, entre eles Robert Eggers e Park Chan-wook. A publicação da Warner Bros. Clockwork anunciou a série de sessões:
https://x.com/clockwork_wb/status/2115473869901619239
Um filme que não foi domado
O retorno chama atenção porque Os Demônios passou mais de 50 anos censurado. A nova cópia recupera sequências retiradas na época do lançamento, incluindo a controversa cena conhecida como “Rape of Christ”. Não é um detalhe qualquer nem uma provocação jogada ali para fazer barulho: a cena faz parte do modo radical como Russell confronta poder, fanatismo e violência religiosa.
Vale o aviso para quem espera um drama histórico comportado, com figurinos bonitos e intrigas de salão. O filme mistura horror psicológico e comentário político com imagens intensas. Russell não parece interessado em deixar o público confortável, e a restauração integral permite encarar a obra na forma que foi concebida, sem as amputações impostas pela censura.
A versão restaurada estreou no Festival de Cannes deste ano, em uma sessão com ingressos esgotados. É um sinal de que a obra continua despertando curiosidade, mesmo décadas depois de ter sido considerada difícil demais para circular sem cortes.
O caso de Loudun no centro da história
A trama se passa na França do século XVII e parte de um caso real de possessões demoníacas ocorrido em Loudun. O roteiro se inspira no livro de Aldous Huxley e acompanha o padre Urbain Grandier, interpretado por Oliver Reed, acusado de bruxaria, e a freira Jeanne des Anges, vivida por Vanessa Redgrave.
Mas o interesse de Os Demônios não está em transformar o episódio numa simples história de assombração. O sobrenatural funciona como porta de entrada para algo bem terreno: disputas de poder, controle institucional e histeria coletiva. Quando crença e autoridade se misturam sem espaço para questionamento, qualquer acusação pode virar arma. O horror aqui não depende apenas de demônios; depende de gente de carne e osso decidindo quem merece ser destruído.
Por que ver na tela grande?
Ver um filme assim restaurado em 4K não é só ganhar uma imagem mais nítida. É reencontrar uma obra cercada por cortes e controvérsias em condições mais próximas da proposta original. E, convenhamos, uma sessão de festival com apresentação de Kleber Mendonça Filho é um contexto especial para entrar nesse universo sem filtro.
Não é preciso tratar todo clássico como relíquia intocável. O que torna Os Demônios interessante é justamente sua capacidade de continuar provocando perguntas: quem controla a narrativa, quem lucra com o medo e até onde uma instituição vai para preservar o próprio poder? A resposta não é exatamente leve, mas também não é por isso que a gente procura cinema de horror.
Para quem estiver em Recife no dia 31 de outubro, a sessão oferece a chance de encontrar um filme raramente visto em sua versão completa e ainda ouvir uma introdução de um dos cineastas brasileiros mais relevantes da atualidade. Para o restante do público, fica a torcida por novas oportunidades de exibição. Um título desses merece mais do que sobreviver como nota de rodapé na história do cinema.
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