Paulo Gustavo completaria 48 anos neste fim de outubro, e seus personagens ainda sabem chegar chegando.
- Do palco para o cinema
- Dona Hermínia virou família
- Além da mãe mais famosa do Brasil
- O humor também morava na TV
- Um legado que ainda faz barulho
Do palco para o cinema
Paulo Gustavo tinha um talento raro: fazia o exagero parecer familiar. Seus personagens podiam falar alto, invadir o espaço alheio e transformar qualquer detalhe numa crise, mas havia sempre um reconhecimento ali. A gente ria porque conhecia alguém parecido. Às vezes, alguém bem próximo. Às vezes, a gente mesmo, e aí era melhor rir antes que a família percebesse.
Essa conexão começou antes dos grandes sucessos de bilheteria. No cinema, ele apareceu em A Guerra dos Rocha (2008) e Xuxa em O Mistério de Feiurinha (2009), entre outros trabalhos. Em Divã (2009), interpretou René, o amigo cabeleireiro de Mercedes, trazendo leveza e energia para a história. Já em Os Homens São de Marte… e É pra Lá que Eu Vou (2014), viveu Aníbal, confidente e parceiro de Fernanda nas desventuras amorosas. Aníbal era aquele amigo que dá conselho, acompanha a confusão e, se necessário, ajuda a piorar tudo com estilo.
Dona Hermínia virou família
É impossível falar da carreira de Paulo Gustavo sem parar em Dona Hermínia. Nascida no monólogo teatral Minha Mãe é uma Peça, a personagem chegou ao cinema em 2013 e encontrou um público enorme. Inspirada em Déa Lúcia, mãe do ator, Hermínia era amorosa, mandona, dramática e incapaz de respeitar a privacidade dos filhos. Ou seja, uma figura que muita gente reconheceu antes mesmo de terminar a primeira cena.
O sucesso virou trilogia: Minha Mãe é uma Peça 2 (2016) acompanhou uma nova fase da família, enquanto o terceiro filme, lançado em 2019, colocou Dona Hermínia diante de outras mudanças importantes na vida de Marcelina e Juliano. Paulo Gustavo também participou dos roteiros. Isso ajuda a explicar por que a personagem não parecia uma coleção de bordões: por trás da gritaria havia afeto, insegurança e aquela dificuldade muito humana de aceitar que os filhos crescem.
O terceiro longa foi a última aparição de Dona Hermínia nos cinemas. E que despedida de personagem: engraçada sem deixar de ser vulnerável, do tipo que consegue provocar gargalhada e, logo depois, apertar o coração. Poucos filmes brasileiros transformaram uma relação tão específica, entre mãe e filhos, em algo tão reconhecível para tanta gente.
Além da mãe mais famosa do Brasil
Paulo Gustavo não ficou preso a um único sucesso. Como Valdomiro Lacerda, em Vai que Cola: O Filme (2015), levou para a tela grande o malandro da série, sempre tentando recuperar o conforto da vida antiga enquanto se metia nas confusões da pensão da Dona Jô. O personagem tinha outra pegada: menos drama familiar, mais caos coletivo e jogo de cintura.
Ele voltou a ser Aníbal em Minha Vida em Marte (2018), acompanhando Fernanda numa viagem atravessada por crise conjugal, amizade e descobertas. A dupla funcionava justamente por não tratar amizade como enfeite: Aníbal estava presente nos momentos constrangedores, nos ruins e naqueles em que a melhor solução era fazer piada para conseguir respirar.
Também vale lembrar Filho da Mãe – Um Reencontro com Paulo Gustavo (2022), documentário que reúne registros pessoais e imagens de arquivo. É uma oportunidade de olhar para o artista para além dos personagens e perceber a relação carinhosa com Déa Lúcia que ajudou a inspirar uma das figuras mais marcantes de sua carreira.
O humor também morava na TV
Na televisão, 220 Volts (2011–2016) mostrou a versatilidade de Paulo Gustavo em esquetes e tipos variados. Ele criou e roteirizou o programa, além de apresentar personagens que mudavam de voz, postura e temperamento num piscar de olhos. Era uma espécie de laboratório de comédia, com espaço para observar comportamentos cotidianos e esticar cada mania até ela ficar irresistível.
Vai que Cola, exibida entre 2013 e 2020, ampliou esse universo com os moradores da pensão do Méier. O elenco funcionava como uma turma que você talvez não convidasse para uma viagem, mas certamente assistiria de longe, com um lanche e zero responsabilidade. Paulo Gustavo também esteve em Paulo Gustavo na Estrada (2014), A Vila (2017–2020) e Além da Ilha (2018). Antes da fama nacional, fez participações em produções como Prova de Amor, Minha Nada Mole Vida e Sítio do Picapau Amarelo.
Um legado que ainda faz barulho
A trajetória de Paulo Gustavo foi interrompida cedo demais, mas seu trabalho não ficou congelado no passado. Os filmes continuam circulando, as falas seguem reconhecíveis e novos espectadores encontram seus personagens sem precisar de manual ou contexto especial. O humor vinha de situações próximas, não de uma piada distante da vida real.
Talvez seja por isso que a saudade venha acompanhada de riso. Dona Hermínia, Aníbal, Valdomiro e os tipos de 220 Volts continuam reunindo pessoas ao redor da tela. Celebrar Paulo Gustavo é lembrar que comédia também pode falar de afeto, família e amizade sem perder a graça. E, convenhamos, fazer a gente rir de uma bronca materna como se fosse a primeira vez é um talento que não aparece todo dia.
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