Clichês de romance podem ser tempero ou pedra no sapato: tudo depende de como a história usa cada um.
- Quando o casal demora demais
- O amor precisa fazer sentido
- Amizades também merecem espaço
- E depois do primeiro beijo?
Quando o casal demora demais
Quem acompanha romance em anime ou mangá provavelmente já passou por isso: dezenas de capítulos de olhares atravessados, mal-entendidos e quase-confissões, até que o casal finalmente assume o que sente. A expectativa pode ser divertida, claro. Mas, quando a história transforma cada conversa sincera em um obstáculo, a torcida começa a virar cansaço.
Saka Mikami conhece bem esse tipo de recurso e quis tomar outro caminho em The Fragrant Flower Blooms with Dignity. A autora comentou, em entrevista ao Anime News Network, que alguns clichês podem afastar o leitor quando parecem existir só para prolongar a trama. E, sinceramente, ninguém merece ver dois personagens quase se declarando por mais tempo do que o necessário para a tripulação do Luffy encontrar um novo destino.
Isso não significa que todo romance precise correr para o primeiro beijo. A graça está em construir a aproximação e dar espaço para dúvidas que pareçam humanas. O problema é confundir desenvolvimento lento com personagens presos num looping de comunicação falha.
O amor precisa fazer sentido
Para Mikami, um ponto importante é o leitor entender por que uma personagem se apaixona por alguém específico. Parece básico, mas é uma diferença enorme entre acompanhar um relacionamento e aceitar que o roteiro simplesmente decretou: “agora eles gostam um do outro”.
Na história, Kaoruko Waguri e Rintaro Tsumugi estudam em escolas diferentes e carregam o peso de mundos que parecem não combinar. Ela vem de um colégio associado a famílias ricas e alunas estudiosas; ele frequenta uma instituição conhecida pela fama problemática de seus estudantes. O encontro dos dois acontece na confeitaria da família de Rintaro, e o vínculo cresce a partir dali.
A premissa tem um quê de Romeu e Julieta, mas o romance não precisa depender só da oposição entre os colégios. A aproximação funciona melhor quando conseguimos enxergar o que cada um valoriza no outro, como a confiança se forma e por que aquela relação importa. É esse tipo de detalhe que faz a torcida parecer espontânea, não uma obrigação imposta pelo autor.
Amizades também merecem espaço
Outro acerto da proposta é não tratar os protagonistas como se vivessem numa bolha romântica. Mikami também desenvolve os amigos do casal e suas relações, dando importância aos laços que existem fora do namoro. Afinal, vida de estudante não é só ficar esperando a pessoa amada aparecer no corredor com trilha sonora imaginária.
A autora explicou que amizades e relações com professores têm peso na própria vida dela, por isso quis refletir essas conexões na obra. Essa escolha ajuda a criar um ambiente mais completo: os personagens não existem apenas para formar casais ou servir de obstáculo ao casal principal.
Quando os coadjuvantes ganham motivações e vínculos próprios, o mundo da história parece maior. E isso também evita aquele triângulo amoroso colocado no enredo só para gerar ciúme e atrasar uma conversa que poderia ser resolvida em cinco minutos. Conflito é bem-vindo; enrolação disfarçada de conflito, nem tanto.
E depois do primeiro beijo?
Um romance não deveria perder a razão de existir assim que os protagonistas começam a namorar. Na vida real, assumir uma relação costuma abrir uma nova etapa, não encerrar a história. Aparecem mudanças, conversas difíceis, momentos de apoio e também aquele aprendizado meio desajeitado de dividir planos com outra pessoa.
Mikami defende justamente que o período depois da formação do casal pode render tanto quanto a conquista. É uma ideia simples, mas que algumas histórias deixam escapar: transformam o namoro no prêmio final e cortam os créditos logo depois. Como se o relacionamento fosse uma missão concluída, com tela de vitória e tudo.
The Fragrant Flower Blooms with Dignity começou a ser publicado em 2021 e soma 24 volumes lançados no Japão, segundo as informações divulgadas. A adaptação em anime é do estúdio CloverWorks e chegou internacionalmente pela Netflix em 2025; no Brasil, o mangá é publicado pela Editora MPeg.
No fim das contas, clichê não é palavrão. Ele pode funcionar muito bem quando os personagens dão vida à fórmula, em vez de apenas repetir seus passos. O que Mikami parece buscar é um romance em que o afeto tenha motivos, os vínculos ao redor também contem e o casal continue interessante depois de dizer “sim”. Para quem já gritou para protagonistas fictícios conversarem direito, isso soa quase revolucionário.
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