Princesa Mononoke teria começado como um conto europeu, mas a história desse suposto roteiro ainda pede cautela.
- O que o documento diz
- Uma virada criativa radical
- Os sinais de alerta
- O que a versão final ganhou
- Curiosidade não é confirmação
O que o documento diz
Um texto que circula como notícia afirma que o Studio Ghibli teria apresentado ao público um tratamento de roteiro de 1994 para Princesa Mononoke. A versão descrita seria bem diferente do filme: a protagonista se chamaria Yan, usaria armadura de couro e viveria uma aventura na Europa medieval, sem Ashitaka nem os lobos que marcam a obra conhecida.
Na trama atribuída ao documento, um bosque britânico seria ameaçado por mineradores, enquanto fadas e uma maldição ocupariam o lugar dos elementos ligados ao folclore japonês. O personagem Roland, descrito como caçador, teria de sacrificar a própria humanidade para deter o avanço industrial. É uma premissa que soa mais próxima de uma fantasia arturiana do que da jornada de San e Ashitaka.
A mesma publicação diz que Hayao Miyazaki descartou dezenas de páginas já aprovadas e recomeçou a produção quando a animação estava perto de começar. Seria uma mudança e tanto, daquelas que fazem qualquer fã imaginar a pilha de desenhos conceituais abandonados numa sala do estúdio.
Uma virada criativa radical
Como ideia, a transformação faz sentido dentro da obra final. Princesa Mononoke não trata a natureza como um cenário bonitinho que precisa ser salvo por um herói impecável. A floresta tem força e mistério, mas os humanos também não são vilões de desenho animado. Lady Eboshi, por exemplo, destrói o ambiente e, ao mesmo tempo, oferece abrigo e trabalho a pessoas marginalizadas.
Essa ambiguidade perderia parte da força se a história dependesse apenas de um conflito genérico entre criaturas mágicas e invasores. A ambientação japonesa e o imaginário espiritual do filme ajudam a construir um mundo em que deuses, animais e pessoas não cabem facilmente em caixinhas de mocinhos e monstros. Não é só trocar um bosque inglês por uma floresta japonesa: muda o coração do conflito.
A notícia também atribui a guinada a uma visita de Miyazaki à ilha de Yakushima. O local é frequentemente associado à atmosfera de floresta do filme, mas a relação específica com o suposto roteiro europeu e com a mudança de direção precisaria de confirmação documental independente.
Os sinais de alerta
Aqui é onde vale guardar o entusiasmo por um instante. O material fornecido não apresenta uma reprodução do tratamento, um catálogo oficial da exposição nem uma declaração verificável do Ghibli ou de seus representantes. Sem esses elementos, os detalhes sobre Yan, Roland, as 70 páginas descartadas e os custos da reescrita devem ser tratados como alegações, não como fatos confirmados.
Há também uma inconsistência temporal fácil de notar: um documento datado de 1994 teria ficado guardado por 29 anos, embora essa conta corresponda a 2023, não a 2026. Isso não prova, por si só, que a história seja falsa, mas é um bom motivo para pedir a fonte original antes de repetir a informação como novidade oficial.
Outra afirmação do relato diz que o filme arrecadou US$ 170 milhões. Números de bilheteria podem variar conforme o critério usado, especialmente quando há relançamentos e mercados diferentes. Sem indicação de fonte e metodologia, esse dado também merece ser conferido.
O que a versão final ganhou
Independentemente dessa história ainda não comprovada, a versão que chegou aos cinemas em 1997 é um exemplo fascinante de como uma obra pode encontrar sua identidade durante o desenvolvimento. O filme põe em choque a expansão industrial e a vida da floresta, mas se recusa a resolver o dilema com uma resposta simples. Eboshi não é apenas uma inimiga, assim como a natureza não é uma entidade gentil que sempre protege quem merece.
Essa tensão explica por que o longa continua rendendo conversa décadas depois. San não abandona sua ligação com a floresta, e Ashitaka não escolhe um lado para apagar o outro. O final aponta para convivência e reconstrução, não para uma vitória limpa. É uma visão menos confortável do que “humanidade contra natureza”, mas muito mais interessante.
Curiosidade não é confirmação
Um roteiro alternativo com fadas, armaduras e uma protagonista chamada Yan seria um achado incrível para quem gosta de espiar os bastidores do Ghibli. Também ajudaria a mostrar que até filmes com uma identidade visual fortíssima podem passar por mudanças profundas antes de encontrar seu rumo.
Mas, por enquanto, o mais honesto é separar a hipótese da história confirmada. Até aparecer documentação rastreável ou uma confirmação oficial, esse suposto tratamento de 1994 deve ser encarado com uma boa dose de ceticismo. A versão final de Princesa Mononoke já é extraordinária sem precisar de uma lenda de bastidor para torná-la maior.
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