Brina Palencia, voz inglesa de Mineta, se surpreendeu com o tamanho da rejeição ao personagem e pede mais cuidado no debate.
- Por que Mineta incomoda tanta gente?
- O que Palencia está questionando?
- Criticar não é absolver
- Quem recebe o julgamento?
Por que Mineta incomoda tanta gente?
Minoru Mineta não é exatamente o colega de classe que você chamaria para uma conversa tranquila sobre respeito. Em My Hero Academia, o aluno da U.A. ficou conhecido pelos comentários inconvenientes sobre as meninas e por atitudes que deixam muita gente desconfortável. Não é difícil entender por que ele virou um dos personagens mais criticados da série.
Uma pesquisa com mais de 2 mil votos chegou a colocá-lo no topo de uma lista de personagens mais detestados da obra. A rejeição, portanto, não é novidade. O que surpreendeu Brina Palencia, atriz que interpreta Mineta na dublagem em inglês, foi a intensidade da hostilidade direcionada a ele.
Em entrevista exclusiva à CBR, Palencia contou que esperava alguma resistência ao personagem, mas não esse nível de agressividade. Ela diz não ter sido alvo de ataques pessoais por causa do papel. O que a preocupa é ver pessoas reagindo com tanta violência à ideia de um adolescente ter sentimentos e pensamentos sexuais.
O que Palencia está questionando?
A atriz não está pedindo que a gente finja que Mineta é um exemplo de boas maneiras. O ponto dela é outro: separar a crítica às ações do personagem do impulso de tratar qualquer falha como se definisse, por completo, quem ele é. É uma diferença importante, especialmente quando a conversa sai da análise da história e vira uma enxurrada de insultos.
Palencia chegou a comparar a forma como algumas pessoas falam de Mineta à maneira como se fala de Harvey Weinstein, mas fez uma distinção explícita sobre idade e poder. Na visão dela, Mineta não é um adulto em posição de autoridade: é um estudante adolescente, sem o poder que marcava aquele caso. A comparação é provocadora e dá para questionar se ajuda a discussão; ainda assim, o argumento central da atriz é que contexto importa.
Ela resume Mineta como um garoto atravessando a puberdade sem lidar com isso com muita elegância. E, bom, a série não exatamente vende o rapaz como um mestre da sutileza. Mas reconhecer que ele é um adolescente não significa transformar qualquer atitude inconveniente em algo aceitável. Contextualizar não é passar pano.
Criticar não é absolver
Esse cuidado aparece no que a própria Palencia faz questão de esclarecer: ela não aprova tudo o que Mineta faz. Também considera positivo que o personagem seja repreendido na história. E não há muita margem para relativizar o ponto mais básico: tocar em alguém sem consentimento não é aceitável, sem exceções.
O debate fica mais interessante quando a gente consegue sustentar duas ideias ao mesmo tempo. Mineta pode agir de forma irritante e merecer críticas, enquanto a reação do público ainda pode passar do ponto. A internet adora transformar personagens em tribunais ambulantes, mas nem toda opinião precisa terminar em pedido de morte ou em condenação sem nuance.
Aliás, falar de uma figura fictícia não é igual a falar de uma pessoa real. Mesmo assim, a linguagem usada em espaços de fãs tem consequências para quem acompanha a conversa, especialmente para leitores mais jovens que podem reconhecer em si mesmos inseguranças ou pensamentos ainda em formação. A preocupação de Palencia está nesse efeito, não em proibir críticas ao anime.
Quem recebe o julgamento?
Outro incômodo levantado pela atriz é a diferença de tratamento. Segundo ela, My Hero Academia tem personagens adultos que expressam sentimentos parecidos, fazem coisas piores e ainda recebem carinho dos fãs. Por que a indignação se concentra tanto no estudante? É uma pergunta válida, embora cada personagem e cada situação mereçam ser avaliados pelo que mostram, não por uma regra automática de idade.
Mineta continua sendo um personagem difícil de defender em vários momentos. E tudo bem dizer isso sem rodeios. O que vale a pena evitar é a falsa escolha entre declarar que ele não faz nada errado ou tratar qualquer discussão sobre o garoto como uma defesa irrestrita do comportamento dele.
No fim, Palencia não pede um clube de fãs para Mineta. Ela pede que a conversa tenha proporção e que a gente pense em quem pode estar lendo. Dá para criticar o personagem, apontar o que a série faz com ele e, ao mesmo tempo, não confundir análise com crueldade. Parece pouco, mas em uma discussão online já seria um avanço digno de herói profissional.
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