Buchigire Reijou: a vilã que abraça o lado podre

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Buchigire Reijou transforma uma vingança de fantasia em um passeio pelo lado mais podre da protagonista. E faz isso sem pedir desculpas.

Uma queda com gosto de vingança

Elizabeth Leiston é uma nobre inteligente, competente e tão ocupada resolvendo os problemas do príncipe que, em algum momento, a gente se pergunta quem está governando aquele reino de verdade. A resposta, infelizmente, é: ninguém muito bem. O príncipe é um desastre ambulante, mas ainda consegue piorar tudo quando troca Elizabeth por outra mulher e ajuda a incriminá-la.

O golpe dói mais porque Elizabeth não é abandonada apenas pelo noivo. O rei, o próprio pai dela e o povo que antes a admirava também não aparecem para salvá-la. Então ela decide que, se o reino prefere tratá-la como inimiga, vai descobrir como é ter uma inimiga de verdade.

Até aí, a gente conhece a receita: injustiça, protagonista poderosa e revanche contra quem merece. Só que Buchigire Reijou dá uma guinada e joga pela janela a parte do “quem merece”. A vingança de Elizabeth não fica no alvo original. Ela quer ver o país ruir, e não parece muito preocupada com quem vai junto nessa viagem.

Elizabeth não é anti-heroína

Um dos acertos do anime é não tentar vender Elizabeth como uma pessoa secretamente bondosa, apenas incompreendida pelo mundo. Ela é fria, calculista e capaz de crueldades que não cabem no rótulo simpático de anti-heroína. O sofrimento dela explica a origem da vingança, mas não transforma cada escolha em justiça poética.

Essa diferença importa. Tem muita história que coloca o protagonista numa situação moralmente questionável e depois corre para arrumar uma justificativa conveniente, como se um discurso sobre “os costumes daquele mundo” limpasse qualquer sujeira. Aqui, a obra parece olhar para essa desculpa e dizer: não, ela está fazendo algo horrível mesmo.

Isso não significa que o anime esteja acima de qualquer crítica ou que toda provocação seja automaticamente genial. Significa que ele sabe qual é o desconforto que está criando e não tenta dourar a pílula para deixar Elizabeth mais fácil de gostar. Como vilã, ela é fascinante justamente porque não está pedindo nossa aprovação.

Sete grimórios e nenhum freio

Elizabeth esconde um conjunto de sete grimórios ligados aos pecados capitais. Eles dão a ela poderes capazes de interferir tanto em conflitos mágicos quanto na política de diferentes territórios. É uma premissa que combina bem com a personagem: ferramentas poderosas, uma usuária sem escrúpulos e consequências que se espalham muito além de uma briga entre ex-noivos.

Uma das passagens mais pesadas envolve o cavaleiro que a prendeu e a humilhou. Quando Elizabeth o encontra em meio a uma guerra, ela promete ajudar o homem e seu exército a voltar para casa. Só que, durante o caminho, invoca uma criatura demoníaca que devora os soldados lentamente, diante do cavaleiro impotente.

E não, aqueles combatentes não eram os responsáveis diretos por tudo que ela sofreu. A cena deixa isso evidente, o que torna a crueldade ainda mais difícil de engolir. Elizabeth não está apenas acertando contas. Ela usa gente que não tem culpa como instrumento para fazer outra pessoa sofrer. É um momento grotesco, mas também uma declaração bem clara sobre quem ela escolheu ser.

O desconforto faz parte do pacote

Outra situação incômoda surge quando Elizabeth e sua empregada consideram comprar uma escrava para ajudar no trabalho de uma companhia de cosméticos. A menina que acompanha as duas reage com espanto, e Elizabeth não tenta convencê-la de que aquilo é certo. A justificativa é, basicamente, que essa prática existe naquele mundo.

O anime também mostra pessoas escravizadas recebendo treinamento e educação, mas não transforma isso numa solução nobre: esse tratamento é pensado para aumentar o valor de venda. A lógica continua sendo exploração, só com uma planilha mais eficiente. É uma escolha de roteiro que impede a cena de virar uma desculpa confortável para normalizar o sistema.

Esse tipo de história pode incomodar, e faz sentido que incomode. O ponto não é confundir retratar crueldade com defendê-la, nem exigir que toda ficção venha com uma lição edificante no final. É observar o que a obra faz com suas escolhas e se ela entende o peso delas. Pelo menos nesta temporada, Buchigire Reijou não parece interessada em fingir que Elizabeth é um exemplo de virtude.

Vale embarcar nessa vingança?

Se você procura uma protagonista querida, um romance que cure todo mundo ou uma vingança que termine com o reino aprendendo uma bela lição, talvez seja melhor procurar outra fantasia. Elizabeth não está aqui para ser sua amiga. Ela quer poder, revanche e a chance de derrubar tudo que a descartou.

Para mim, é justamente aí que a série encontra sua identidade. A protagonista pode ser repulsiva, e nem toda cena extrema vai funcionar para todo mundo, mas existe algo refrescante numa obra que não tenta disfarçar a própria vilã com um verniz de bondade. Buchigire Reijou está disponível na Crunchyroll e é um prato cheio para quem gosta de fantasia sombria sem protagonista limpinha. Só não espere sair da sessão achando que Elizabeth seria ótima para chamar para um jantar.

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