ChaO: o “sereia anime” GKIDS que foge do óbvio

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ChaO pega a clássica fantasia de humanos apaixonados por sereias e joga num liquidificador futurista, com design esquisitão e animação “em partes macia”, do jeito que só o mundo geek gosta.

De Splash a ChaO: por que esse romance dá uma guinada

O cinema vive de humanos se apaixonando por seres do mar. Vai de “Splash” até as releituras da Disney, e cada época faz sua versão do mesmo sonho: alguém “normal” apaixonado por alguém completamente fora da curva. Só que ChaO, animação da GKIDS lançada nos Estados Unidos em abril, não parece nem um pouco com uma simples recontagem do conto.

Em vez de voltar para o clássico arco de “amor impossível” com cheiro de coral e final feliz previsível, o filme cria um romance curioso, meio bizarro, meio aconchegante. A história começa com um salto absurdo de roteiro: uma princesa sereia aparece na vida de um cara que só queria paz, boleto e trabalho. Sim, é o tipo de premissa que você lê e pensa “ok, isso vai dar errado”, e aí você vê e percebe que a graça é justamente essa mistura de estranhamento com afeto.

O mundo 20XX: robôs, sereias e a zoeira da convivência

ChaO se passa em um futuro vago, apresentado com aquele cartaz que parece aviso de tecnologia: “20XX”. A ideia é simples e eficiente: sereias e robôs coexistem com humanos e a sociedade já está naquela fase “normaliza e segue”. Ou seja, o filme não tenta convencer que esse universo é plausível demais. Ele só quer que você aceite o clima e curta.

O protagonista é Stephen, funcionário humilde de uma empresa ligada a construção naval. Ele tem um sonho grande que todo mundo ignora, até que a filha do rei das sereias, Chao, surge na vida dele com uma proposta que parece brincadeira de mundo paralelo: casamento. O Stephen aceita não pelo romance em si, mas porque a publicidade do casamento dá a ele status e aquela luz verde que destrava a chance do seu projeto mais ambicioso, um supernavio.

No meio disso tudo, Chao não fica como aquela sereia “misteriosa” de distância. A convivência vira o motor emocional. É aquele papo de aprender a cuidar de alguém diferente, com direito a situações absurdas, fofura desajeitada e um arco de crescimento que não fica só no “olha como eles se amam”.

Yasuhiro Aoki na direção: estilo emborrachado contra o realismo

Quem dirige o projeto é Yasuhiro Aoki, estreante na direção em longa. E ele vem de anos no Studio4°C, animando coisas com um pé pesado em realismo. Antes de ChaO, ele trabalhou como animador principal em projetos que valorizavam movimentos e textura bem “concretos”, inclusive coisas que passam longe do “fofinho de desenho”.

Então, na estreia, ele decide ir na contramão. A aposta é um estilo com cara de animação macia, bombástica, com expressões exageradas e um ritmo que parece fazer piada com a gravidade. Em vez de você achar que cada cena vai “se comportar”, você sente que o filme quer te puxar para um humor visual próprio, daqueles que acertam no tempo do gag e no exagero controlado.

Para entender a vibe, o melhor jeito é tratar ChaO como uma peça de linguagem. Ele mistura expressividade cômica com um toque de realismo onde interessa, criando um resultado que gruda na cabeça. E, sim, dá aquele pensamento geek: “por que eu não vi isso antes do jeito certo?”.

Aliás, a GKIDS tem um histórico forte em espalhar animações fora do mainstream, como dá para ver no perfil do estúdio em GKIDS.

Design de personagens: Chao é fofa, estranha e impactante

Um dos elementos que mais diferenciam ChaO é o design. O filme trata o mundo como um lugar onde todo mundo é “um pouco esquisito”, mas de um jeito orgânico. As pessoas aparecem com formas excêntricas: chefes com aparência de ovos ambulantes, figuras tipo bobbleheads e um desfile constante de traços que quebram a expectativa de “cidade futurista padrão”.

A própria Chao existe em dois formatos, e isso é essencial pro tema. Na forma “peixe terrestre”, ela é uma criatura grande, desajeitada, vacilante e atarracada. Já na forma aquática mais humanóide, tem pele clara e cabelos aguados, com uma ideia mais “idealizada”. Só que o arco do Stephen não fica refém de qual versão é a mais bonita. O filme faz você entender que o amor ali é sobre presença e cuidado, não sobre aparência.

E tem uma dica extra no processo: o estúdio usa referências que lembram quadrinhos clássicos japoneses, com aquela energia de comédia corporal. O resultado é um visual que não pede licença para ser caricato, mas consegue ser expressivo. É o tipo de animação que, quando você pausa o frame, parece capa de fanart espontânea.

E não, não é só “A Pequena Sereia”: a pista é Titanic

Muita gente vai olhar e achar que A Pequena Sereia é a referência óbvia. Só que Aoki já deixou claro que o conto da Disney não é o plano principal. A grande inspiração é Titanic, de James Cameron, por causa do romance em alto mar e do jeito como a história é enquadrada por um ponto de vista externo.

No filme, existe um repórter que vive num mundo onde sereias e humanos ficam mais próximos e que acompanha o que aconteceu depois que Stephen e Chao sumiram anos antes. Assim, o amor dos protagonistas fica com um “sabor” de memória, investigação e mito urbano. É uma sacada que dá profundidade sem virar aula, e mantém o clima de romance com um tempero extra de drama cinematográfico.

Apesar de o centro ser a dupla protagonista, o filme também traz coadjuvantes que não são só enfeite: tem amigos, invenções, kung fu e até um segundo romance acontecendo nos bastidores. A mensagem por trás disso é clara: um mundo fantástico fica mais convincente quando os personagens parecem ter vida fora do enquadramento.

ChaO é sereia, mas é cinema de personalidade própria, né?

No fim, ChaO faz o que os melhores romances estranhos fazem: respeita a ideia do “impossível” e muda a forma de contar. Ele pega a fantasia de sereias e humanos e transforma numa história sobre convivência, carinho e aceitação, com um estilo visual que não tenta copiar ninguém. É sereia anime, só que com identidade própria, e isso já é meio caminho andado.

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