Crítica: A família finalmente ganha vida, mas sem o brilho dos grandes épicos da Marvel
Foi preciso chegar à quarta tentativa cinematográfica para que a “Primeira Família” da Marvel fosse tratada com a dignidade que merece. Após décadas de adaptações que variaram do esquecível ao desastroso, “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” aterrissa nos cinemas com uma proposta clara: consertar os erros do passado focando no que realmente importa — as relações humanas. No entanto, essa mudança de rota cobra um preço, afastando o longa daquela “magia” explosiva que consagrou os maiores blockbusters do estúdio.
A trama nos transporta para a Terra-828, uma realidade retrofuturista onde o diretor Matt Shakman constrói uma utopia visualmente deslumbrante. É nesse cenário que encontramos Reed Richards (Pedro Pascal), Sue Storm (Vanessa Kirby), Johnny Storm (Joseph Quinn) e Ben Grimm (Ebon Moss-Bachrach). O elenco é, sem dúvidas, o grande trunfo da produção. A química entre eles é palpável, transformando super-heróis em parentes críveis que discutem sobre afazeres domésticos com a mesma intensidade com que planejam missões espaciais.
O roteiro acerta ao colocar o nascimento de Franklin Richards, filho de Reed e Sue, no centro do conflito. A ameaça de Galactus (Ralph Ineson) e sua arauto, a Surfista Prateada (Julia Garner), deixa de ser apenas um perigo global para se tornar um risco pessoal. A motivação dos heróis não é apenas o altruísmo abstrato, mas a proteção da prole. É uma dinâmica que humaniza o grupo, mas que também reforça a sensação de que estamos assistindo a um drama familiar com orçamento de ficção científica.
E é aqui que o filme divide opiniões. Embora seja uma obra competente, “Primeiros Passos” passa longe de ser um blockbuster nos moldes clássicos do MCU. Quem espera a grandiosidade de eventos como Vingadores ou a adrenalina constante de Guerra Civil pode sair frustrado. O filme tem uma “pegada” totalmente família, por vezes lembrando mais uma sitcom de luxo do que um épico de ação. Falta aquela eletricidade, aquele senso de escala e urgência que costumava ser a marca registrada da Casa das Ideias.
Tecnicamente, a produção oscila. A direção de arte é primorosa ao criar um mundo otimista e vibrante, mas o CGI derrapa em momentos cruciais, lembrando que nem mesmo a Marvel está imune a prazos apertados. Além disso, a escolha de ignorar questões sociais sob a justificativa de uma sociedade utópica pode soar como uma simplificação excessiva para um público moderno.
Em suma, “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” é um bom filme, que finalmente acerta o coração dos personagens, mas erra ao não entregar o espetáculo que se espera de heróis desse calibre. É uma introdução segura e carinhosa, mas que deixa a desejar no quesito “magia Marvel”.







