Donna Oliveira e as histórias que questionam a justiça

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Donna Oliveira saiu do interior capixaba para escrever histórias que chegam a milhões de pessoas.

De Nova Venécia para o audiovisual

Antes de assinar projetos para plataformas de streaming, Donna cresceu em Nova Venécia, no Espírito Santo, estudou em escolas públicas e nem sequer tinha um cinema na cidade para frequentar. O primeiro contato com uma sala de cinema veio aos 19 anos. Não é exatamente o caminho que a gente imagina para alguém que acabaria construindo carreira no audiovisual, mas a vida real não costuma seguir o roteiro mais óbvio.

Nascida em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, ela se considera capixaba: foi criada no Espírito Santo e estudou Jornalismo em Vitória. Depois, mudou-se para São Paulo para fazer uma pós-graduação em Jornalismo Literário. Foi ali que começou a perceber que seu interesse não estava apenas em contar fatos, mas em dar forma a personagens e narrativas.

A entrada na profissão veio por uma combinação de curiosidade, trabalho e uma coincidência digna de bastidor de série. Em São Paulo, Donna fez amizade com roteiristas de uma produtora que ficava na mesma rua da república onde morava. Eles leram textos dela e compartilharam roteiros. A oportunidade abriu uma porta, mas atravessá-la exigiu construir espaço num mercado que, como ela reconhece, pode ser fechado para quem chega sem contatos.

Uma carreira de vários gêneros

Em 13 anos de carreira, Donna passou por projetos bem diferentes entre si. Escreveu para as temporadas 3 e 4 de Sintonia, série da Netflix sobre jovens da periferia de São Paulo, e integrou a equipe de Sutura, thriller médico do Prime Video. Também trabalhou em produções como Santo Forte, 171: Negócio de Família, A Garota da Moto e Escola de Gênios.

Uma das experiências mais marcantes veio com O Prazer é Meu, documentário do Globoplay sobre o prazer feminino. Donna foi roteirista-chefe da produção, indicada ao Emmy Internacional de 2025 na categoria Documentário. O reconhecimento importa não só pelo tamanho da premiação, mas também por mostrar que temas ligados à experiência das mulheres podem ocupar espaço em projetos populares, informativos e com personalidade.

A série trata de assuntos complexos sem precisar vestir a fantasia de aula formal. Esse equilíbrio entre leveza e profundidade é um desafio de roteiro: explicar sem simplificar demais e divertir sem transformar tudo em piada. Quando funciona, o público aprende quase sem perceber. É um pouco como aquelas histórias de Star Wars que parecem aventura espacial, mas também falam de poder, família e escolhas.

Habeas Corpus e os erros judiciais

Donna é cocriadora e roteirista de Habeas Corpus, série da Netflix inspirada no trabalho do Innocence Project Brasil. A produção aborda erros judiciais e a busca por justiça, um assunto que tem consequências muito concretas fora da tela. Aqui, o drama não depende de um vilão com risada sinistra: basta olhar para o impacto que uma decisão equivocada pode ter na vida de alguém.

Esse tipo de história pede cuidado. Não se trata apenas de criar suspense com uma investigação, mas de mostrar os dilemas envolvidos quando pessoas tentam rever condenações e encontrar respostas. O tema também lembra que o sistema de justiça é feito por escolhas humanas e, portanto, pode falhar. A ficção não substitui o debate real, claro, mas pode ajudar a colocar perguntas importantes na roda.

É uma aposta interessante para uma série de streaming porque combina tensão narrativa com um tema social urgente. Se o suspense prende o espectador, a discussão sobre como se reconhece e se corrige uma injustiça é o que pode continuar na cabeça depois dos créditos.

As origens também contam histórias

Parte da escrita de Donna nasce de experiências próprias. Filha de pastor, ela cresceu em uma família evangélica e deixou a igreja ainda adolescente. Esse repertório aparece em projetos como Santo Forte e no curta Reteté, que escreveu e dirigiu. Em vez de transformar comunidades religiosas em caricatura, ela procura retratar contradições, relações familiares e conflitos entre regras coletivas e liberdade individual.

O curta, feito no Espírito Santo com apoio de um edital da Secretaria da Cultura, também levou atores de Vitória para a produção e foi selecionado para a Première Brasil do Festival do Rio de 2026. E o estado continua surgindo em outros trabalhos: em Rauls, série da Netflix, uma personagem tem origem em Nova Venécia.

Essa trajetória tem algo de especialmente bacana: Donna não precisou apagar de onde veio para fazer parte de uma indústria concentrada nos grandes centros. Pelo contrário, leva suas referências para as telas e abre espaço para vivências que costumam aparecer pouco. Entre dramas jurídicos, histórias de família e documentários, ela mostra que diversidade não é um detalhe de bastidor. É matéria-prima para contar histórias mais interessantes.

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