Festival de Sitges 2026 provou que o cinema fantástico brilha mesmo longe dos holofotes dos blockbusters.
- Sitges vai além dos blockbusters
- Ficção científica com ideias na cabeça
- Brasil no mapa do fantástico
- Estrelas e surpresas na programação
- O valor de não saber o que vem
Sitges vai além dos blockbusters
Nem todo festival precisa ter um lançamento gigantesco para entrar na conversa. A edição de 2026 do Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha, em Sitges, terminou sem um fenômeno do tamanho de Frankenstein ou Bugonia, mas deixou uma lembrança talvez mais valiosa: ainda existe muito cinema interessante fora da fila de franquias conhecidas.
Durante o evento, a cidade litorânea espanhola vira parte da experiência. O fantástico não fica restrito à tela: ocupa as ruas, as conversas e aquela expectativa gostosa de escolher um filme sem saber se você vai encontrar uma nova obsessão ou sair pensando “que viagem foi essa?”. Para quem vive de maratonar universos compartilhados, essa dose de surpresa faz bem.
Sitges dá palco a produções que talvez não tivessem o mesmo destaque no circuito comercial. E isso importa. Nem toda história precisa nascer com orçamento de nave imperial e campanha publicitária do tamanho de uma Estrela da Morte para merecer atenção.
Ficção científica com ideias na cabeça
Entre os filmes que chamaram atenção estava Dreamquil, com Elizabeth Banks. A ficção científica usa inteligência artificial para mexer com temas como identidade feminina, maternidade e a fronteira entre realidade e ilusão. É um terreno fértil para perguntas incômodas, não apenas para computadores fazendo coisas assustadoras em salas escuras.
Já Found Alive, estrelado por Chloë Grace Moretz e dirigido por Carlota Pereda, aposta no suspense. A proposta reforça um dos prazeres de Sitges: topar com um filme que talvez não estivesse no seu radar e descobrir que ele oferece uma experiência bem diferente da sessão previsível da semana.
O valor não está em declarar que todo filme de festival é uma obra-prima incompreendida. Está em abrir espaço para vozes e ideias que podem se perder quando a conversa gira sempre em torno dos mesmos lançamentos. Às vezes, a melhor recomendação é justamente aquela que você não sabia que precisava.
Brasil no mapa do fantástico
O cinema brasileiro também teve presença marcante. Zé do Caixão: Inferno em Sitges recupera a relação entre o personagem criado por José Mojica Marins e o público espanhol. Essa conexão atravessa quatro décadas e mostra que Zé do Caixão não é só um ícone do terror nacional: também faz parte da memória afetiva do próprio festival.
Outro destaque foi Yellow Cake, que leva a ficção científica para o sertão nordestino e conta com Tânia Maria no elenco. A mistura de gênero com identidade regional é um lembrete de que o fantástico não precisa copiar modelos de fora para funcionar. Dá para imaginar o estranho, o grandioso e o inquietante a partir de paisagens e referências brasileiras.
A lembrança de Bacurau pode surgir naturalmente, mas cada filme segue seu próprio caminho. O ponto em comum é a confiança de que histórias brasileiras podem brincar com gêneros sem deixar sua personalidade na porta do cinema. E, convenhamos, ver isso ganhar espaço em um festival internacional é motivo de orgulho.
Estrelas e surpresas na programação
A edição não ficou sem rostos conhecidos. Kevin Bacon, Adam Scott, Elizabeth Banks, Chris Evans, Anya Taylor-Joy e Chloë Grace Moretz protagonizaram produções da programação. Bacon, Danny DeVito e Peter Jackson também passaram pelo evento e receberam homenagens, reforçando que Sitges consegue aproximar nomes de Hollywood de filmes menos óbvios.
Entre as surpresas, Wildwood chamou atenção com seu stop-motion e alcançou 100% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes. O resultado colocou a animação entre os títulos para acompanhar na corrida pelo Oscar de 2027, embora ainda seja cedo para fazer qualquer previsão com pompa de vidente Jedi.
Essa técnica artesanal também tem seu charme próprio. Em uma indústria dominada por imagens digitais e universos que parecem nunca acabar, ver uma animação apostar no trabalho quadro a quadro é quase um lembrete de que a invenção ainda pode ser feita com as mãos, um detalhe de cada vez.
O valor de não saber o que vem
Talvez a edição de 2026 não seja lembrada por um único título que tomou conta das conversas. E tudo bem. O que fica é a soma de filmes, encontros e descobertas, além da chance de assistir a algo sem chegar à sala com expectativas fabricadas por meses de trailers e teorias.
Em tempos de continuações, franquias e propriedades intelectuais disputando cada pedaço da nossa atenção, Sitges preserva uma liberdade rara: a de não saber exatamente o que vem pela frente. Para fãs de cinema fantástico, isso não é um detalhe. É parte da magia. Às vezes, a melhor aventura começa quando você ainda nem sabe qual é o monstro do filme.
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