Festival do Rio 2026 chega à 28ª edição maior e com uma ambição clara: aproximar ainda mais o cinema da cidade.
- Um festival em reconstrução
- O cinema como pausa, não como nostalgia
- Streaming na tela grande, com regras
- Uma festa para públicos diferentes
Um festival em reconstrução
Depois dos anos de pandemia e de um período de retomada, Ilda Santiago avalia que o Festival do Rio voltou a ocupar uma dimensão à altura da capital fluminense. A edição de 2026, a 28ª da história, reúne cerca de 300 filmes espalhados por diferentes pontos da cidade. Não é pouca coisa: montar uma programação desse tamanho exige logística, fôlego e, principalmente, uma boa leitura de quem vive por ali.
Em conversa com o Omelete, a diretora descreveu a edição como resultado de um processo de reconstrução. A frase que resume essa ideia tem o peso de uma promessa: “Voltamos a ser o que a cidade merece”. Mais do que um slogan bonito para estampar cartaz, ela aponta para a ambição de fazer o festival circular e encontrar públicos diferentes, em vez de ficar restrito a uma bolha de cinéfilos.
O evento também movimenta o setor para além das salas. Santiago cita a presença de mais de 70 convidados ligados aos filmes e de mais de 100 executivos internacionais, além de profissionais brasileiros em busca de coproduções e novos negócios. Cinema é arte, claro, mas festivais também ajudam a construir pontes para que os projetos saiam do papel e alcancem outros países.
O cinema como pausa, não como nostalgia
A conversa sobre o futuro do cinema passa inevitavelmente pelas mudanças nos hábitos de consumo. Hoje, dá para assistir a produções em casa, no celular e em plataformas com catálogos quase infinitos. Para Santiago, isso não apaga o valor da sala escura. Ela define o cinema como uma espécie de trégua: um momento para parar, mergulhar numa história e se conectar com outras experiências.
É uma defesa que faz sentido sem precisar transformar o streaming em vilão. O ponto não é fingir que os hábitos não mudaram, mas lembrar que a experiência coletiva ainda tem algo especial. Rir, se assustar ou ficar em silêncio junto de uma sala cheia é diferente de pausar o filme para responder mensagem. E, convenhamos, quase todo mundo já fez isso em casa.
A diretora também destaca que o público precisa encontrar mais filmes brasileiros nas salas e ter mais espaços para assisti-los. O país ainda tem poucas salas em relação ao tamanho da população. Formação de plateia, distribuição e acesso não são detalhes burocráticos: são parte do caminho para que o público descubra obras além dos grandes lançamentos de sempre.
Streaming na tela grande, com regras
Produções de plataformas como Netflix, Globoplay e Prime Video também têm lugar na programação. Para Santiago, isso reconhece que o talento brasileiro está espalhado por diferentes formatos e empresas. A presença dessas obras no festival ainda reforça uma relação curiosa: plataformas e salas podem disputar atenção, mas também se beneficiam quando um filme ganha visibilidade e encontra espectadores no cinema.
Sobre a regulação do streaming, a resposta dela é direta: regras são importantes para o equilíbrio de qualquer cinematografia. A discussão, em sua visão, não deveria ser tratada como uma briga simples entre cinema e tecnologia. O desafio é organizar o setor para estimular produção e diversidade, sem ignorar que os formatos de consumo continuam mudando.
Essa perspectiva evita uma guerra meio cansada entre “cinema de verdade” e “conteúdo de plataforma”. O debate mais interessante é como garantir que diferentes obras sejam produzidas, cheguem ao público e tenham condições de circular. A tela pode mudar; a necessidade de boas histórias continua firme.
Uma festa para públicos diferentes
A seleção de um festival começa muito antes da abertura. Santiago conta que o trabalho envolve pesquisa ao longo de todo o ano, acompanhando grandes eventos internacionais e buscando tanto títulos aguardados quanto filmes que talvez tenham passado longe do radar. Esse equilíbrio é uma das tarefas mais delicadas: trazer o que o público quer ver e, de quebra, surpreendê-lo com algo que ainda nem sabia que queria.
Na programação de 2026 há filmes brasileiros e estrangeiros, documentários, animações, terror e obras voltadas a públicos jovens, além de produções que podem aparecer na temporada de premiações de 2027. A variedade importa porque festival não precisa ser uma maratona de filmes com a mesma cara. Pode ser uma porta de entrada para gêneros e histórias que talvez não encontrem espaço no circuito comercial.
Com 28 edições nas costas, o Festival do Rio construiu relações com cineastas, profissionais e espectadores. Mas a relevância não se mantém no piloto automático: depende de renovar a conversa com a cidade a cada ano. Se a promessa de Santiago se cumprir, a edição de 2026 será menos um desfile de títulos e mais um convite para o Rio inteiro voltar a se encontrar diante de uma tela.
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