Grace Passô no terror é uma novidade até para a atriz, que admite ter evitado filmes do gênero quando era mais jovem.
- Do medo à curiosidade pelo terror
- Um culto fictício, um medo bem real
- Os códigos do gênero em cena
- Da direção aos próximos projetos
Do medo à curiosidade pelo terror
Em A Professora de Francês, Grace Passô vive sua primeira personagem em um filme de terror. A atriz conversou sobre a experiência durante o Festival do Rio 2026 e contou que sua aproximação com o gênero veio aos poucos. Quando era mais nova, filmes de terror a assustavam tanto que ela preferia ficar longe deles. Bem compreensível: às vezes, a melhor estratégia contra uma casa mal-assombrada é simplesmente não apertar o play.
A mudança de perspectiva veio quando o terror começou a conversar mais diretamente com a realidade cotidiana. Para Passô, Corra!, de Jordan Peele, foi um marco pessoal nesse caminho. O filme não inventou essa mistura entre horror e vida real, mas mostrou como o gênero pode transformar tensões sociais reconhecíveis em matéria de suspense.
Hoje, a atriz enxerga no terror e no deboche duas formas artísticas especialmente expressivas para lidar com o mundo. São linguagens capazes de provocar desconforto, mas também de oferecer uma espécie de catarse. O susto, nessa leitura, não serve apenas para fazer alguém pular da cadeira: pode ajudar a dar forma a medos que já estavam ali.
Um culto fictício, um medo bem real
Em A Professora de Francês, Passô interpreta a protagonista, uma professora que enfrenta uma emergência de saúde envolvendo o pai. Em busca de apoio financeiro e emocional, ela se aproxima de um culto religioso que vive nas proximidades. A acolhida inicial, porém, abre espaço para que o lado sombrio daquele grupo apareça.
O culto foi criado para o filme, segundo a atriz. A escolha de não associá-lo a uma religião específica permite que a história investigue o fanatismo de maneira mais ampla. Para Passô, esse comportamento pode surgir em diferentes crenças e também atravessar a política, o que dá ao tema um peso bastante contemporâneo.
Essa abordagem ajuda a explicar por que a narrativa circula entre suspense, thriller e terror. O elemento assustador não depende apenas do que pode acontecer dentro de um culto inventado. Ele nasce também da vulnerabilidade da protagonista e da facilidade com que a necessidade de ajuda pode abrir portas para relações de controle.
Os códigos do gênero em cena
A estreia no terror também colocou Passô diante de convenções próprias do gênero. A atriz descreve esses códigos como uma espécie de memória compartilhada do público: quem assiste reconhece ritmos, tensões e formas de atuação construídas ao longo da história do cinema de horror.
Trabalhar dentro desse universo foi uma experiência inédita para ela. A familiaridade do espectador com essas regras pode influenciar a maneira como uma cena é interpretada e como o suspense se instala. Não é só uma questão de reagir a um susto; é entender como o corpo e a atuação participam da atmosfera que o filme está criando.
O projeto foi exibido no Festival do Rio 2026, e a previsão informada para a chegada ao circuito comercial é o início de 2027. Até lá, já dá para perceber que a proposta não usa o terror só como embalagem: o gênero está ligado ao modo como a história observa fanatismo, fragilidade e cotidiano.
Da direção aos próximos projetos
A conversa também passou por Nosso Segredo, primeiro longa dirigido por Passô. O filme nasceu de um texto teatral que ela escreveu em 2005 e foi retrabalhado para o cinema. Antes dele, a artista já havia experimentado outras funções na área, incluindo a realização do média-metragem Vaga Carne e do curta República, feito a convite do Instituto Moreira Salles durante a pandemia.
Nosso Segredo passou por Berlim e recebeu reconhecimento no Festival de Gramado, um começo marcante para sua trajetória na direção de longas. Passô diz que tem ideias e roteiros em desenvolvimento, embora ainda estejam em estágio inicial. A experiência de dirigir também repercutiu em sua vida como atriz, aproximando no cinema funções que ela já explorava no teatro.
Com A Professora de Francês, Passô encara pela primeira vez os códigos do horror como intérprete; com Nosso Segredo, abre outra frente criativa atrás das câmeras. São caminhos diferentes, mas que mostram uma artista interessada em experimentar formas novas de contar histórias, sem deixar de olhar para as inquietações do presente.
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