isto a TV não mostra é o tipo de livro que entrega bastidor sem tirar o humor, e ainda lembra que televisão também tem coração (e uns perrengues homéricos).
- Do estúdio para a gaveta: a virada do projeto
- RBS na pauta e no papel: o que a TV não conta
- Por que crônica combina com jornalismo
- Capa de caos, redação de propósito
- Vai rolar ficção no próximo salto?
Do estúdio para a gaveta: a virada do projeto
Quando a jornalista e colunista Brígida De Poli colocou o ponto final em isto a TV não mostra, ela não só resgatou histórias antigas. Ela tirou da gaveta um projeto que já vivia meio em modo hibernação desde que deixou a RBS TV, em 2010. Sabe aquele arquivo que você jura que vai abrir “logo”? Então: ele ficou ali, até o lançamento de No escurinho do cinema, quando ex-colegas foram lá e acenderam a faísca.
Na prática, o livro nasce de memória e de convivência. Brígida conta que a escrita foi puxada pelo que ficou guardado no corpo e no cotidiano: o jeito de apurar, as cenas do dia a dia e as revelações que costumam passar batidas quando a câmera está ligada. É como se a TV mostrasse o frame final, mas o livro resolvesse exibir o processo inteiro, com seus “ups” e “ops”.
RBS na pauta e no papel: o que a TV não conta
O novo trabalho, Isto a TV não mostra, reúne crônicas e revelações do telejornalismo da RBS TV, afiliada da Rede Globo em Santa Catarina, onde Brígida trabalhou por dezessete anos. O foco é aquele tipo de conteúdo que não cabe no teleprompter. Entre as páginas, surgem casos divertidos, gafes no ar, visitas malucas, perrengues de repórteres e também momentos pesados.
Tem um episódio que aparece como um grande boss final para ela: a cobertura da grande enchente de 2008, quando morreram 135 pessoas e milhares ficaram desabrigadas. A escrita, segundo Brígida, emperra porque não é só narrar um evento, é coordenar emoções enquanto a memória pesa. E mesmo quando a enchente entra no livro “por cima”, em tom mais lateral, a comoção segue ali, firme, sem alívio fácil.
Na segunda parte, o livro ganha vida com depoimentos de colegas daqueles tempos, incluindo nomes como Anselmo Prada, Andrea Buzato, Giovanna Flores, Angelo Ribeiro, Fabiano Marques, Carmen Lopes e Márcia Calegaro. Dá para sentir que é um mosaico: cada voz ilumina um pedaço da redação que a TV, no máximo, só sugere.
Por que crônica combina com jornalismo
Brígida explica que crônica é herança do jornalismo: fatos, observações e reflexões do mundo real. Ou seja, não é “inventar do nada” e nem tentar virar fantasia total. Ela própria diz que adoraria escrever ficção, mas ainda não se sente preparada para longas narrativas, talvez só microcontos, orientada por Robertson Frizero.
Isso conversa com o que o leitor sente ao acompanhar essas histórias. A crônica funciona como um close. Em vez de cronologia seca, vem a sensação do ambiente: o tempo correndo, o humor aparecendo no meio do estresse e a percepção do que poderia dar errado e acabou indo do jeito mais inesperado.
E no meio da conversa, rola aquela revelação gostosa: a autora tem um favorito entre os três livros. Para ela, o mais “filho” ainda é o mais magrinho, No escurinho do cinema. O motivo? Foi capaz de mexer com as lembranças de quem lê, trazendo de volta infância, primeiro namoro e o ritual do cinema como memória afetiva. Tradução: o livro virou uma máquina de nostalgia licenciada.
Capa de caos, redação de propósito
A capa de Isto a TV não mostra retrata quase um caos na redação. Mas será que era assim mesmo? Brígida dá aquela resposta que parece roteiro de making of: não chegava ao caos, era mais estresse inerente ao trabalho. Televisão tem horários rígidos e todo mundo tenta dar conta, às vezes correndo e gritando, mas a estrutura do dia a dia ainda existia.
A ideia foi fazer uma capa divertida, e o ilustrador Abner Dângelo brincou com a balbúrdia diária, mantendo aquele tom visual de “redação em modo sobrevivência, mas em pé”. Curioso é notar que o livro parece equilibrar duas coisas: o caos aparente e a organização escondida. É como se a bagunça fosse só a parte visível da engrenagem.
Falando em referências, se você curte esse tipo de bastidor entre TV e cultura de tela, uma boa linha de leitura passa por matérias e compilações em plataformas como a Wikipedia sobre telejornalismo, que ajuda a contextualizar como o formato molda o que vai ao ar e o que fica nos bastidores.
Vai rolar ficção no próximo salto?
Brígida não quer correr: o próximo livro não vem tão cedo. Mas ela já dá pistas do maior desafio. Seria encarar um romance ficcional, talvez epistolar, um gênero que ela gosta. Só que ficção é outra liga. No fim, o que faz isto a TV não mostra funcionar é exatamente isso: a autora conhece a engrenagem por dentro e usa a crônica para revelar o que a câmera não consegue capturar com clareza.
Em outras palavras, é livro para quem ama cultura pop, mas também respeita o mundo real. Porque, às vezes, o melhor plot twist não é inventado. É lembrado com carinho e coragem, com aquele humor que dá para rir sem apagar o peso.














