John Carradine atravessou décadas de Hollywood, atuou em centenas de produções e deixou uma família inteira no cinema.
- Uma carreira sem pausa
- O rosto de clássicos e monstros
- Uma dinastia de atores
- Bill, o papel que fechou o círculo
Uma carreira sem pausa
John Carradine teria completado 120 anos em 2026. Nascido em Nova York, em 5 de fevereiro de 1906, ele morreu em Milão, em 1988, aos 82 anos. No caminho, acumulou 351 créditos entre cinema e televisão. Não é pouca coisa: há atores que trabalham a vida inteira para construir uma filmografia, e Carradine parecia ter encontrado um atalho entre um set e outro.
Seu nome de nascimento era Richmond Reed Carradine. Antes de Hollywood, veio o teatro: começou a atuar em 1925, em Nova Orleans, e depois se mudou para Los Angeles. O palco também alimentou sua fama de intérprete shakespeariano, com papéis como Hamlet. Mas foi sua presença marcante, somada àquela voz grave que parecia anunciar uma tempestade, que abriu caminho para o cinema.
O produtor Cecil B. DeMille não se impressionou com os desenhos que o jovem Carradine lhe mostrou, mas gostou da voz e o contratou para trabalhos de dublagem. Daí veio o apelido “The Voice”. Em 1935, Richmond Reed passou a usar profissionalmente o nome John Carradine, que logo se tornaria presença familiar nas telas.
O rosto de clássicos e monstros
Uma parceria importante foi com o diretor John Ford, que recorria a um grupo de atores em vários filmes. Carradine apareceu em No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), western lembrado por ajudar a lançar John Wayne ao estrelato. No ano seguinte, interpretou o pregador Jim Casy em As Vinhas da Ira, adaptação do romance de John Steinbeck estrelada por Henry Fonda.
O currículo também inclui o épico Os Dez Mandamentos (1956), de DeMille, e The Shootist (1976), o último filme de John Wayne. Carradine raramente era o protagonista, mas tinha aquele tipo de rosto que dá textura a uma cena: basta aparecer para o espectador sentir que há uma história antes mesmo de o personagem abrir a boca.
Com o passar dos anos, o ator também se tornou presença constante no terror, inclusive em produções mais modestas. Vestiu a capa do Conde Drácula em House of Frankenstein (1944) e House of Dracula (1945). Em 1983, dividiu A Noite das Facas Longas com lendas do gênero como Vincent Price, Christopher Lee e Peter Cushing. Convenhamos: esse elenco parece uma reunião dos chefões finais do terror clássico.
Uma dinastia de atores
A carreira de Carradine não ficou restrita a ele. Teve cinco filhos, e quatro seguiram a profissão: Bruce, David, Keith e Robert. Christopher escolheu outro caminho e trabalhou como arquiteto. Bruce, filho de Ardanelle Cosner, foi adotado por John; David nasceu do mesmo casamento. Keith e Robert vieram da união do ator com Sonia Sorel.
Essa família chegou a compartilhar a tela. Em The Long Riders (1980), David, Keith e Robert interpretaram irmãos, enquanto John e David contracenaram em Boxcar Bertha (1972), filme dirigido por Martin Scorsese. É quase como se a escalação viesse pronta de casa, embora cada um tenha construído sua própria trajetória.
Keith Carradine também deixou uma marca musical em Hollywood: escreveu e interpretou “I’m Easy”, de Nashville (1975), canção que venceu o Oscar de Melhor Canção Original. Mais tarde, apareceu em produções como Fargo e Dexter. Robert ficou conhecido por A Vingança dos Nerds e, para uma geração mais nova, como Sam, o pai de Lizzie McGuire. Bruce teve uma carreira mais discreta e atuou ao lado de David em Q – The Winged Serpent.
Bill, o papel que fechou o círculo
Entre os filhos, David Carradine se tornou o mais conhecido mundialmente. Ganhou fama como Kwai Chang Caine na série Kung Fu, exibida entre 1972 e 1975, e depois trabalhou em filmes como Bound for Glory, de Hal Ashby. Mas, para muita gente, sua imagem definitiva chegou décadas depois, com um convite de Quentin Tarantino.
Em Kill Bill: Volume 1 e Volume 2, David interpretou Bill, o líder do grupo de assassinos que desencadeia a vingança da Noiva, vivida por Uma Thurman. Tarantino chegou a considerar Warren Beatty para o papel, mas Carradine acabou dando ao personagem uma mistura de elegância, ameaça e calma inquietante. Não é só um vilão que sabe lutar: é alguém capaz de transformar uma conversa em duelo.
O papel reacendeu a atenção sobre a carreira de David e rendeu a ele uma indicação ao Globo de Ouro e um prêmio Saturn. Ele morreu em 2009, aos 72 anos. John não viveu para acompanhar esse capítulo, mas a ligação entre os dois resume bem o legado da família: um ator que fez história em centenas de produções e um filho que encontrou, com Tarantino, um dos vilões mais memoráveis do cinema moderno.
Sugestão para o seu Set-up Nerd:
Encontramos produtos incríveis com desconto!















