Kore-eda e IA fizeram um teste de roteiro que terminou rápido: o diretor achou as sugestões do chatbot corretas, mas entediantes.
- Chat-kun na sala de roteiro
- O problema de estar sempre certo
- Cinema também é memória
- A escolha de ficar do lado humano
- O que a IA não consegue assistir
Chat-kun na sala de roteiro
Hirokazu Kore-eda, diretor de filmes como Assunto de Família, resolveu experimentar uma ferramenta generativa enquanto trabalhava no roteiro de Sheep in the Box, projeto que também aborda inteligência artificial. Ele compartilhou o texto com um chatbot e, depois de algumas conversas, batizou o assistente de “Chat-kun”.
A ideia fazia sentido: se a história trata de IA, por que não colocar uma dessas ferramentas para ler o roteiro? O diretor contou à Variety que o chatbot elogiava o material e identificava pontos que poderiam ser desenvolvidos. Até aí, tudo bem. O problema é que a conversa não demorou a ficar previsível.
Entre as sugestões estava dar mais espaço à mãe da protagonista. Kore-eda reconheceu que a observação fazia sentido. Só que, para ele, a ferramenta parecia acertar sempre pelo caminho mais óbvio, como aquele colega que revisa seu trabalho e só recomenda “explicar melhor” algo que você já sabia que precisava explicar.
O problema de estar sempre certo
O incômodo do cineasta não foi uma resposta absurda ou um erro grotesco. Foi justamente o contrário: a IA era educada, elogiava bastante e oferecia recomendações plausíveis. Mas plausível não é sinônimo de interessante. E uma boa história nem sempre nasce de uma sugestão que parece impecável numa reunião de pauta.
Kore-eda observou que muitos filmes já parecem seguir conselhos desse tipo. O resultado, segundo ele, são escolhas que o público consegue antecipar, como uma luta no teto de um trem que chega no momento exato em que todo mundo espera. É a diferença entre uma sequência que surpreende e uma que parece cumprir uma checklist de cenas empolgantes.
Esse tipo de previsibilidade não é exclusivo de ferramentas de IA, claro. Hollywood já produziu histórias calculadas muito antes de qualquer chatbot virar assunto de mesa de bar. Mas a experiência de Kore-eda aponta para um risco: usar recomendações estatisticamente seguras como se fossem um atalho para encontrar uma voz própria.
Cinema também é memória
Para o diretor, um chatbot pode reunir informações sobre filmes em quantidade impressionante, mas isso não equivale a ter uma relação pessoal com eles. A máquina não tem uma lembrança de infância associada a uma sessão, nem um filme que apareceu num momento difícil e reorganizou tudo por dentro. Pode descrever obras; não pode dizer que uma delas mudou sua vida.
E aí mora uma diferença que parece pequena, mas muda bastante a conversa. Uma pessoa pode ter visto poucos filmes, ter um gosto torto e defender uma escolha discutível com a convicção de quem está falando de algo importante. Essa experiência particular, com todas as suas falhas, pode empurrar um artista para um lugar menos óbvio. Às vezes, o gosto estranho é justamente a parte mais interessante da criação.
Não é que toda opinião humana seja genial ou que o cinema precise transformar cada lembrança pessoal em obra-prima. A provocação de Kore-eda é mais simples: criar não é apenas combinar referências e consertar pontos fracos. Também envolve escolher o que importa, mesmo quando não há uma resposta universalmente correta.
A escolha de ficar do lado humano
Depois de algumas rodadas, Kore-eda encerrou a parceria com Chat-kun e afirmou que não usou IA na produção de Sheep in the Box. Também disse que pretende manter a tecnologia fora de seu processo criativo o máximo possível. Para ele, a pergunta não deveria ser apenas o que os humanos precisam fazer no cinema, mas por que continuam fazendo: porque criar é divertido.
Essa resposta tem algo de deliciosamente simples. Num momento em que toda ferramenta nova é vendida como a próxima grande revolução, lembrar que fazer arte também dá prazer soa quase rebelde. Nem toda atividade criativa precisa ser otimizada como se fosse uma planilha de produtividade com trilha sonora.
O que a IA não consegue assistir
A experiência de Kore-eda não prova que uma IA nunca possa ajudar alguém a revisar um roteiro. Uma ferramenta pode apontar inconsistências, sugerir alternativas ou funcionar como um primeiro leitor disponível às três da manhã. O limite aparece quando a sugestão correta começa a ser confundida com a sugestão que torna a obra mais viva.
O cinema não é feito só de estrutura e eficiência. Também carrega obsessões, contradições e escolhas que talvez pareçam erradas até encontrarem sua forma na tela. Um algoritmo pode ajudar a organizar o caminho, mas ainda não tem uma vida para colocar em risco numa cena. E, pelo menos para Kore-eda, é melhor que esse risco continue nas mãos de quem ama fazer filmes.
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