Otto Guerra vê a animação brasileira em alta, mas teme que mudanças políticas ameacem o futuro da Ancine.
- Um avanço com um sinal de alerta
- Por que a Ancine importa
- Um filme para encontrar o público
- O progresso não desaparece
Um avanço com um sinal de alerta
Otto Guerra não está exatamente em clima de festa, mesmo com um novo longa chegando ao público. No Festival do Rio 2026, o diretor de Rocky & Hudson e Wood & Stock falou sobre o bom momento da animação nacional, mas também sobre o receio de ver esse caminho ameaçado por uma nova guinada política.
A preocupação ganhou força com a tramitação de uma proposta que, segundo a reportagem, prevê o fim da Ancine. O projeto citado é o PL 994/2026, na Câmara dos Deputados. É importante separar o alerta do cineasta de um fato consumado: a agência não foi extinta, e o cenário depende dos rumos políticos e legislativos.
O nome de Flávio Bolsonaro aparece nesse debate como uma possibilidade eleitoral associada à continuidade de uma agenda conservadora. A referência de Otto é o governo de Jair Bolsonaro, período em que mecanismos de incentivo cultural foram congelados ou desestruturados. Para quem trabalha com projetos longos e equipes numerosas, esse tipo de instabilidade não é uma discussão abstrata. Pode determinar se uma ideia sai do papel ou fica na gaveta.
Por que a Ancine importa
Uma agência de fomento não faz o filme no lugar do artista, claro. Mas ajuda a criar condições para que produções brasileiras existam, encontrem estrutura e cheguem às telas. Sem políticas de incentivo, o mercado tende a favorecer quem já tem dinheiro e distribuição, enquanto projetos autorais precisam encarar uma subida ainda mais íngreme.
Na animação, o desafio é especialmente visível. Um longa pode exigir anos de trabalho, centenas de profissionais e um planejamento que não combina com a lógica do “vamos ver no que dá”. Otto chama o momento atual de uma combinação curiosa: a animação brasileira alcançou um patamar que ele não imaginava, mas o futuro da política cultural deixa o setor apreensivo.
É aí que a conversa deixa de ser só sobre uma sigla. Quando o apoio público perde força, não some apenas uma linha de orçamento: pode se quebrar uma cadeia de trabalho construída aos poucos. E reconstruir essa estrutura depois costuma ser bem mais difícil do que preservá-la.
Um filme para encontrar o público
O longa que levou Guerra ao festival é O Filho da Puta, ainda sem previsão de estreia comercial no Brasil. O título chamou a atenção do diretor, mas foi a história de Carla Magalhães, roteirista baiana que vive em Madri, que o convenceu a embarcar no projeto. A trama acompanha uma jornada que ele descreve como um road movie feito a pé.
Guerra também aponta uma questão que a animação brasileira ainda precisa resolver: chegar a mais espectadores. Para ele, o boca a boca e a repercussão na imprensa podem ajudar o filme a encontrar seu público. É uma aposta importante, porque animação não é sinônimo de conteúdo infantil, embora muita gente ainda trate o formato como se todo desenho tivesse que vir com brinquedo no combo.
O diretor diz estar contente com a recepção de O Filho da Puta e brinca com a própria confiança no resultado. O humor combina com a trajetória de alguém que, neste projeto, chega ao oitavo longa. Não é pouca coisa para um setor que tantas vezes precisa provar que merece existir.
O progresso não desaparece
Apesar do receio, Otto não enxerga o trabalho feito nos últimos 25 anos como algo que possa ser simplesmente apagado. A estrutura, a experiência acumulada e as pessoas que aprenderam a fazer animação no Brasil continuam existindo. Isso não significa que cortes ou desmontes seriam inofensivos, mas ajuda a entender por que o cineasta insiste em seguir produzindo mesmo diante da incerteza.
Essa é a parte mais esperançosa da fala dele, sem virar discurso de superação com trilha épica: o caminho já foi aberto, e há gente pronta para continuar. A Ancine e as políticas culturais podem ser decisivas para manter esse percurso vivo, mas não são as únicas responsáveis pela criatividade de quem faz cinema.
Agora, O Filho da Puta precisa conquistar sua estreia e seu público, enquanto o setor acompanha as decisões políticas de perto. Torcer pelo filme e cobrar estabilidade para a produção nacional não são tarefas incompatíveis. Na verdade, são duas formas de defender que histórias brasileiras continuem chegando à tela.
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