Rubens de Falco tinha presença de sobra para transformar qualquer entrada em cena num aviso: alguém estava prestes a sofrer. Como Leôncio, virou um dos vilões mais marcantes da TV brasileira.
- O olhar que anunciava problema
- Leôncio foi só o começo
- Um ator além da fazenda
- Um legado que não ficou no Brasil
O olhar que anunciava problema
Tem personagem que precisa levantar a voz para causar impacto. Leôncio, o fazendeiro cruel de A Escrava Isaura, muitas vezes nem precisava. Na interpretação de Rubens de Falco, um olhar duro e uma fala controlada já bastavam para deixar claro que a situação de Isaura podia piorar a qualquer momento. Era vilania em modo silencioso, e justamente por isso tão eficiente.
Exibida pela Globo em 1976, a novela colocou o ator no centro de uma história que o público não esqueceu. Leôncio era obcecado por Isaura, vivida por Lucélia Santos, e tentava submetê-la com violência e crueldade. A personagem era abominável, claro, mas a atuação não dependia de exageros para funcionar. Rubens construía a ameaça com presença, voz firme e uma elegância que tornava o sujeito ainda mais assustador.
É aquele tipo de papel que gruda na memória coletiva. Como acontece com Darth Vader em Star Wars, a força não está apenas no que o vilão faz, mas na maneira como sua presença muda o clima da cena. Só que, no caso de Leôncio, não havia sabre de luz nem galáxia distante: a violência vinha de uma realidade histórica brasileira, o que torna a trama especialmente pesada.
Leôncio foi só o começo
Depois de marcar a teledramaturgia como Leôncio, Rubens voltou a viver um poderoso defensor da escravidão em Sinhá Moça, de 1986. Ali, interpretou o Barão de Araruna, também conhecido como Coronel José Ferreira. Autoritário e preso aos próprios privilégios, o personagem entrava em choque com a filha, que defendia ideais abolicionistas. Uma disputa familiar que, no fundo, expunha o conflito de uma sociedade inteira.
Mas reduzir a carreira do ator a fazendeiros perversos seria fazer com ele o que um roteiro preguiçoso faz com um personagem: colocar tudo numa única gaveta. Em A Sucessora, de 1978, ele viveu Roberto Steen, um viúvo rico cuja fixação pela primeira esposa afetava o relacionamento com Marina, interpretada por Susana Vieira. Já em O Astro, de 1977, foi Samir Hayala, um homem ambicioso que queria ganhar espaço nos negócios da família.
Os papéis eram diferentes, mas Rubens tinha uma habilidade especial para dar peso a figuras de autoridade, homens acostumados a mandar e pouco dispostos a ouvir um não. Isso não significa que todos fossem iguais. O mérito estava em ajustar o tom e encontrar novas maneiras de tornar cada personagem convincente, em vez de simplesmente repetir o mesmo vilão com outro figurino.
Um ator além da fazenda
A trajetória começou antes do grande sucesso televisivo. Rubens passou pelo teatro na década de 1950 e também construiu uma carreira no cinema, com estreia nas telas em Appassionata, de 1952. Ao longo dos anos, participou de mais de 30 filmes, atravessando gêneros e projetos bem diferentes entre si.
Entre os trabalhos estão O Homem que Comprou o Mundo, de 1968, e Coronel Delmiro Gouveia, de 1978. Em Pixote: A Lei do Mais Fraco, filme de Hector Babenco lançado em 1980, interpretou um juiz. O papel é um lembrete interessante de que, embora o público associe seu nome à vilania, sua carreira não cabia numa única moldura.
Seu último trabalho no cinema foi Fim da Linha, lançado em 2008, depois de sua morte. O ator faleceu em fevereiro daquele ano, aos 76 anos, após sofrer uma embolia pulmonar. A despedida encerrou uma trajetória extensa, mas não apagou as cenas que continuam circulando na memória de quem acompanhou suas novelas.
Um legado que não ficou no Brasil
O alcance de A Escrava Isaura ajudou a levar Rubens de Falco para muito além do público brasileiro. A novela fez sucesso em diversos países, e o ator também trabalhou em produções de Portugal, Venezuela e Cuba. Não é pouca coisa: uma história criada para a televisão brasileira atravessou fronteiras e apresentou seu vilão a espectadores com outras línguas e culturas.
Em 2004, Rubens voltou ao universo da trama no remake de A Escrava Isaura, produzido pela Record. Só que, desta vez, interpretou o Comendador Almeida, pai de Leôncio. É uma daquelas voltas que parecem escritas por um roteirista com senso de humor: o ator que eternizou o filho cruel retornava à história como o pai dele.
Rubens de Falco morreu em 2008, mas seu trabalho segue sendo referência quando a conversa é sobre grandes antagonistas da televisão brasileira. Leôncio continua provocando indignação, como deve ser, e a atuação permanece viva justamente porque não transforma a crueldade em caricatura. Vilão inesquecível não é só aquele que a gente odeia. É aquele que, décadas depois, ainda consegue gelar a sala quando aparece.
Sugestão para o seu Set-up Nerd:
Encontramos produtos incríveis com desconto!















