Sugar 2ª temporada: Fernando Meirelles faz falta

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Sugar voltou para a 2ª temporada com aquele cheiro bom de neo-noir, mas sem o tempero visual que a gente sentiu falta. Resultado: retorno intrigante, porém morno.

De volta ao noir, mas sem o mesmo brilho

A primeira temporada de Sugar (Apple TV) foi aquele tipo de estreia que faz a gente coçar a cabeça e pensar: como ninguém tinha inventado isso antes? Primeiro porque o “detetive protocolar” parecia um prato sem graça, e aí o Colin Farrell e o tom neo-noir viraram charme instantâneo. Segundo porque a revelação do protagonista, o John Sugar ser um alienígena, pegou o público desprevenido sem parecer gimmick barato. Era audacioso e, ao mesmo tempo, coerente com a vibe da série.

Agora, depois de mais de dois anos, a segunda temporada desembarca com o episódio de abertura “Home Away From Home” resolvendo o cliffhanger rápido o suficiente para ninguém perder a linha. O roteiro de Sam Catlin faz um resumo eficiente: Sugar volta para Los Angeles, volta para a noite, volta para o caso de desaparecimento e encaixa a busca pela irmã e as suspeitas envolvendo um senador. Ou seja: o barco volta pro mar que a gente gosta, só que a direção muda.

O roteiro acerta, a trama evolui sem enrolar

Se tem uma coisa que funciona em “Home Away From Home” é a mecânica. Catlin demora pouco para recolocar Sugar no “hábitat natural” da série e, a partir daí, vai construindo uma história com sensação de continuidade. O interessante é que a série não tenta reinventar a roda: ela refina. O caso da vez tem estrutura clara, evolui em etapas e vai ganhando densidade conforme as pistas se conectam.

E, de brinde, a produção mantém o equilíbrio entre o grande mistério e o episódio em si. A busca pela irmã continua sendo o motor emocional, enquanto o senador que pode estar por trás da descoberta da raça alienígena dá um horizonte político e perigoso para o que vem pela frente. É aquele tipo de enredo que te mantém assistindo sem exigir que você pause a vida para montar teoria no bloco de notas.

Fernando Meirelles faz falta no olhar de câmera

O ponto chato, e bem específico, é: a série perde parte da “magia” visual que existia na primeira temporada. Lá, a direção contava com Fernando Meirelles e Adam Arkin, e isso aparecia como calor, proximidade e uma Los Angeles esfumada com tons intoxicantes. Não era só referência ao film noir. Era como se a série respirasse por dentro daquele legado, usando recortes de linguagem para criar uma memória afetiva. Você não assistia apenas um noir. Você era puxado para a atmosfera dele.

Para abrir a 2ª temporada, entra Michael Morris. E aí, na prática, o que você sente é falta de “manha” no diálogo visual. Os ângulos ficam burocráticos, a iluminação em alto contraste cria espaços sombreados grandes demais, mas vazios, sem expressar aquela tensão bonita que o noir costuma carregar. O resultado é que Sugar vira, por momentos, mais “chapada” do que estilosa, como se alguém tivesse substituído tempero por sal.

Mesmo com o charme do protagonista, fica difícil ignorar que metade da graça da série era justamente o estilo. Quando o estilo perde personalidade, o que sobra é uma história competente, porém menos magnética.

Elenco sustenta o clima e salva cenas

Por sorte, o mundo urbano hiper estilizado ainda tem quem preencha com carisma. A série chega com reforços que combinam com o tom urbano de Los Angeles, incluindo Jin Ha, Raymond Lee, Sasha Calle e Laura Donnelly. Cada um ajuda a construir credibilidade, e isso faz diferença quando a direção não está capturando aquela mesma assinatura.

Além disso, Colin Farrell continua firme como o coração gelado e engraçadinho do negócio. O “E.T.” do pacote ainda funciona, porque a série não trata a condição alienígena como piada. Ela usa isso como camada de mistério e afetos, do jeito certo. Se por um lado a estética pede um empurrão para voltar a ser viciante, por outro o elenco mantém a série naquele nível de “ok, só mais um episódio”.

Inclusive, é legal lembrar que a Apple TV vem investindo pesado em produções autorais que misturam gêneros sem medo. Só que, para Sugar, autoralidade sem a direção certa vira quase conceito sem pegada.

Sugar ainda te pega, mesmo sem o mesmo noir?

A 2ª temporada de Sugar é boa o bastante para manter o interesse e reafirmar o que a série sabe fazer: ritmo, mistério e um protagonista improvável que funciona. Mas também é morna em um ponto crucial. Quando a direção não entrega aquele diálogo visual caloroso da primeira fase, a série parece mais “funcional” do que inesquecível.

Tradução: a base está lá, a curiosidade continua, e o elenco carrega. Só que a ausência do olhar do Fernando Meirelles (e da assinatura que ele ajudava a construir) faz diferença demais para a gente chamar essa volta de arraso. Vai ser legal acompanhar, mas com aquele gostinho de “cadê o tempero?”.

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