The Devils: clássico ressurge e chega aos cinemas do Brasil

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The Devils ressurge em uma nova remasterização e já tem distribuição confirmada nos cinemas brasileiros.

Um clássico que quase sumiu

Tem filme que ganha fama de proibido e, com o tempo, vira quase uma lenda. The Devils, de Ken Russell, é um desses casos. Lançado em 1971, o longa mergulha em intrigas dentro da Igreja Católica, onde desejo, poder e ganância se misturam numa história tão provocadora quanto difícil de esquecer.

A combinação de nudez, violência e temas religiosos incendiou controvérsias e levou a diferentes cortes e censuras. Por muito tempo, encontrar uma versão próxima da visão original de Russell era missão de arqueólogo cinéfilo: cópias de baixa qualidade circulavam na internet, enquanto lançamentos oficiais eram raros. Agora, uma nova remasterização traz o filme de volta à conversa, e também às telas.

O impacto da remasterização

O primeiro choque não vem apenas do conteúdo, mas da forma. A remasterização destaca a escala dos cenários, construídos para parecer ao mesmo tempo físicos e quase sobrenaturais. Há uma imponência teatral que transforma os espaços em parte central da experiência, como se cada corredor escondesse um segredo e cada salão estivesse a um passo do inferno.

Os figurinos reforçam essa sensação. As vestes religiosas carregam autoridade, mas também parecem deslocadas, quase como uniformes de uma seita. Russell não busca uma reconstituição histórica comportada: ele monta imagens exageradas, inquietantes e cheias de intenção. É cinema que não quer ficar quietinho no canto, e ainda bem.

Essa nova apresentação foi exibida em Cannes em 2026 e voltou a colocar o longa diante de públicos que talvez só conhecessem sua reputação. A restauração também chega pela Warner Bros. Clockwork, novo selo do grupo voltado a filmes de prestígio. A ironia é deliciosa: um título que passou décadas enfrentando resistência agora recebe tratamento de obra para ser redescoberta.

Entre o horror e o humor

Vanessa Redgrave interpreta a irmã Jeanne des Agnes com uma intensidade febril, enquanto Oliver Reed faz do padre Grandier uma figura magnética e detestável. Ninguém ali parece interessado em facilitar a vida de quem assiste. As atuações abraçam o excesso do filme e ajudam a criar uma atmosfera em que desejo e delírio se confundem.

Mas existe uma peça que muita gente pode não esperar: The Devils também é engraçado. Seu humor é ácido, sarcástico e absurdo, um contraponto importante aos momentos mais pesados. A comédia não suaviza o que está em cena; ela desarma a plateia antes de o filme puxar o tapete. É aquele riso nervoso que aparece quando você percebe que a situação ficou ainda mais estranha do que imaginava.

Essa mistura impede que o longa vire apenas um catálogo de imagens chocantes. Russell usa o escândalo como ferramenta, mas também observa a hipocrisia e os jogos de poder com uma ironia afiada. O resultado continua desconfortável, só que desconforto aqui é parte do convite.

A volta ao circuito brasileiro

A boa notícia para quem está no Brasil veio durante uma sessão especial no Cinema São Luiz, em Recife, dentro da Janela Internacional de Cinema. O diretor Kleber Mendonça Filho apresentou a remasterização e anunciou que a Vitrine Filmes adquiriu os direitos de distribuição do longa no país.

Isso confirma que The Devils será lançado nos cinemas brasileiros, embora uma data para a estreia ainda não tenha sido informada. A passagem do filme por festivais e sua circulação internacional reacenderam o interesse por uma obra que, durante muito tempo, parecia condenada a sobreviver apenas em cópias difíceis de encontrar.

Por que ver na tela grande?

Porque este é o tipo de filme que ganha outra força quando suas imagens ocupam uma sala inteira. Cenários monumentais, composições visuais ousadas e atuações no limite pedem uma tela grande, não uma janelinha espremida entre mensagens no celular. E, convenhamos, poucas experiências de cinema combinam tão bem com a sensação de estar vendo algo que já foi tratado como proibido.

Não é preciso chegar esperando um filme fácil ou confortável. The Devils provoca, exagera e cutuca feridas antigas, mas faz isso com uma personalidade que continua rara. A remasterização não transforma o clássico em novidade por mágica; ela devolve ao público a chance de descobrir por que esse filme ainda causa tanto barulho. Quando a data brasileira aparecer, vale ficar de olho.

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