Vicentina Pede Desculpas transforma uma caminhada de luto em um retrato íntimo de culpa, memória e afeto.
- Uma história que caminha
- O diálogo com o cinema iraniano
- Rejane Faria no centro da história
- Afeto com raízes mineiras
- Um filme para sentir, não para correr
Uma história que caminha
Dirigido por Gabriel Martins, o longa acompanha Vicentina, uma mãe que acaba de perder o filho. Ele trabalhava como motorista de ônibus e morreu quando o veículo caiu de um viaduto em Belo Horizonte. Mas a dor dela não fica restrita à própria família: o acidente também vitimou outras pessoas, deixando mais gente tentando entender como seguir adiante.
Em vez de transformar a tragédia em um mistério policial ou numa corrida por respostas, o filme escolhe outro caminho. Vicentina visita familiares das vítimas, escuta relatos e encontra diferentes formas de lidar com a perda. A cada encontro, a narrativa abre espaço para novas histórias e deixa claro que o luto nunca cabe numa explicação simples.
O movimento da protagonista é parte essencial do filme. Ela anda, visita, conversa e repete esse percurso, como se cada passo fosse uma tentativa de organizar por dentro aquilo que não tem conserto. É uma escolha narrativa que combina com uma personagem que parece carregar o peso do mundo nos ombros, sem precisar anunciar isso em voz alta.
O diálogo com o cinema iraniano
O longa conversa com uma tradição do cinema iraniano que encontra grandes questões humanas em situações aparentemente cotidianas. Em vez de despejar respostas, filmes como Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami, confiam no tempo, na escuta e nos encontros. Gabriel Martins se aproxima desse espírito, mas leva a proposta para um contexto mineiro e para uma protagonista mulher.
Há algo de circular na estrutura: Vicentina repete uma ação, mas cada visita amplia o alcance emocional da história. Não é repetição por falta de ideias; é a forma escolhida para mostrar que a dor muda de tamanho conforme a gente se aproxima dela. Quem espera reviravoltas a cada cinco minutos talvez estranhe. Quem topa acompanhar o ritmo da personagem pode encontrar muito mais nas pausas.
O filme também transforma o caminhar numa espécie de substituição simbólica. O filho era motorista; agora, é Vicentina quem percorre a cidade e tenta alcançar as pessoas atingidas pela tragédia. Essa imagem dá corpo a uma pergunta que ronda a personagem: até onde uma mãe se sente responsável pelas escolhas e pelo destino dos filhos?
Rejane Faria no centro da história
Rejane Faria sustenta o filme com uma atuação de presença contida. Sua Vicentina não precisa explicar cada sentimento para que a gente perceba o tamanho da ferida. Um gesto, um silêncio ou a maneira de escutar alguém dizem muito. É uma interpretação que confia no público, em vez de apertar todos os botões emocionais ao mesmo tempo.
Essa contenção faz diferença numa história sobre culpa. Vicentina não está apenas de luto pelo filho: ela parece carregar também o peso das outras vidas perdidas. Rejane encontra humanidade nessa tensão, sem reduzir a personagem a uma mãe sofrida ou a uma figura sempre sábia. Ela é alguém tentando continuar, mesmo sem saber direito o que fazer com a própria dor.
O resultado é uma atuação que dá unidade aos encontros e mantém a narrativa ancorada numa pessoa concreta. O filme pode olhar para muitos personagens, mas nunca perde de vista quem está tentando atravessar aquela cidade e aquele momento impossível.
Afeto com raízes mineiras
O diálogo com o Irã não apaga a identidade brasileira da obra. Pelo contrário: Vicentina Pede Desculpas encontra sua personalidade na casa da protagonista, nos objetos, na vizinhança e nos vínculos familiares. Há um modo mineiro de ocupar o tempo e de cuidar das relações que contrasta com a pressa de um mundo em que todo mundo parece estar respondendo mensagem enquanto atravessa a rua.
A família aparece como herança cultural, como aquilo que passa de uma geração para outra. Essa devoção não é tratada como uma peça de museu nem como resposta automática para todos os conflitos. Ela oferece um chão para os personagens, ao mesmo tempo que torna mais doloroso o esforço de aceitar a ausência.
O nome da protagonista também tem uma ligação pessoal: Vicentina era o nome da avó de Gabriel Martins. Esse detalhe combina com um cinema que olha para quem veio antes com respeito, mas sem transformar afeto em discurso açucarado. O carinho está nos gestos e na atenção dedicada às pessoas comuns.
Um filme para sentir, não para correr
Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa teve uma sessão concorrida no CineSesc. A estreia nos cinemas está prevista para 5 de novembro de 2026. É uma boa notícia para quem gosta de descobrir o cinema brasileiro fora da rota dos grandes espetáculos, com histórias que deixam espaço para a gente respirar e pensar.
Não espere que o filme resolva a tragédia com uma resposta definitiva. A questão sobre o que aconteceu e sobre a responsabilidade do filho permanece por perto, mas não vira o centro de tudo. A jornada importa mais do que um veredito. E, no fim, o que fica é a tentativa de compreender a dimensão de uma dor que continua mesmo quando a cidade segue funcionando.
Se você curte cinema de ritmo contemplativo, atuações que trabalham nos detalhes e histórias sobre laços familiares, vale guardar esse título no radar. Não é um filme que corre para arrancar lágrimas: ele prefere caminhar ao lado da personagem. Às vezes, esse passo mais lento chega mais fundo.
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