You Can See Everything acompanha Elizabeth Holmes antes da prisão, mas a produção conseguiu manter o documentário longe dos holofotes até sua estreia surpresa.
- Um documentário sem alarde
- Equipe pequena, segredo grande
- A surpresa faz parte da experiência
- O que esperar da estreia
Um documentário sem alarde
Elizabeth Holmes já rendeu manchetes, livros e adaptações dramáticas. Ainda assim, You Can See Everything encontrou um jeito de chegar ao público sem uma campanha longa anunciando cada detalhe: apareceu de surpresa no Festival de Telluride, em 6 de setembro.
O filme acompanha a fundadora da Theranos nas semanas que antecederam sua prisão por fraude. É um recorte bem específico de uma história que o público já conhece em linhas gerais, mas que ganha outra camada quando a câmera observa a própria Holmes perto de uma virada decisiva.
A produção é assinada por Lance Oppenheim e Nathan Fielder. Para quem conhece o humor desconfortável de Fielder, a combinação com um documentário sobre uma figura tão controversa já desperta curiosidade. Só que, pelo que Oppenheim contou, a prioridade não era transformar o projeto em espetáculo: era deixar a vida acontecer diante da equipe.
Equipe pequena, segredo grande
Oppenheim explicou, em entrevista à Variety, que preservar o segredo era importante para não interferir no que estava sendo registrado. A solução foi trabalhar com um grupo enxuto, de apenas sete ou oito pessoas.
Não é difícil entender a lógica. Uma produção enorme, cercada de gente e de movimentação, tende a mudar o ambiente que pretende documentar. Com menos pessoas por perto, a equipe tinha mais chances de observar sem transformar cada encontro numa cena montada para a câmera. Isso não significa que o documentário seja invisível, claro, mas mostra uma preocupação em reduzir a própria presença.
O segredo também evitou que a conversa pública sobre o filme começasse antes de o público poder assisti-lo. Em tempos em que cada anúncio ganha trailer, bastidor, entrevista e uma fila de teorias nas redes, guardar uma produção inteira é quase um feito de espionagem. Sem precisar de capa e codinome, felizmente.
A surpresa faz parte da experiência
A estreia em Telluride marcou a primeira vez que muita gente ouviu falar do projeto. Segundo Oppenheim, a plateia chegou sem conhecer o filme, e a reação foi especialmente interessante justamente por isso. Ninguém entrou com uma lista pronta de cenas para confirmar ou com uma teoria viral já grudada na cabeça.
O diretor espera que, mesmo com o trailer já disponível, parte da experiência continue protegida. A ideia é assistir sem saber exatamente o que vem pela frente e deixar o filme conduzir. Para um documentário, isso pode fazer diferença: o espectador não fica só procurando respostas, mas também reage ao que aparece na tela no momento em que aparece.
Oppenheim ainda comentou que ele e Fielder nem sempre concordavam sobre o que tinham registrado em determinados dias. Um percebia algo que o outro não, e essa diferença também apareceu nas conversas depois da sessão em Telluride. Para ele, ver o público debatendo momentos específicos foi um bom sinal. Quando cada pessoa sai discutindo uma cena diferente, talvez o filme tenha conseguido abrir espaço para mais de uma leitura.
O que esperar da estreia
You Can See Everything é uma produção da A24 e tem estreia marcada nos cinemas dos Estados Unidos para 16 de outubro. Até agora, não há data anunciada para o lançamento no Brasil, então por aqui resta aguardar novidades sobre a distribuição.
O caso Theranos já parece feito sob medida para o cinema: promessa grandiosa, uma empresa cercada de expectativas e uma fraude que terminou em condenação. O diferencial deste projeto, ao menos pelo que foi revelado até aqui, está menos em recontar a cronologia conhecida e mais em acompanhar Holmes num período específico, com uma equipe pequena e sem transformar cada passo em campanha promocional.
O melhor talvez seja chegar ao filme sabendo o básico e deixando o resto para a sessão. Não porque mistério seja sinônimo automático de qualidade, mas porque uma estreia sem alarde combina com a proposta de observar antes de julgar. E, quando a história envolve Elizabeth Holmes, é bem provável que a conversa continue depois que as luzes acenderem.
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