Yu-Gi-Oh!: a ameaça que fez a Toei ceder Dragon Ball

Twitter
LinkedIn
Threads
Telegram
WhatsApp

Yu-Gi-Oh! e Dragon Ball quase entraram em rota de colisão por causa de uma disputa de direitos que mudou o futuro do Rei dos Jogos.

O anime que parou no meio do caminho

Hoje, Yu-Gi-Oh! é sinônimo de duelos, monstros com ataques absurdos e cartas que podem custar mais que um console novo. Mas antes de Yugi abrir o estojo e mandar alguém para o Reino das Sombras, a franquia teve uma primeira adaptação bem diferente. E ela quase ficou sem futuro por causa de uma briga entre a Toei Animation e a Shueisha.

O primeiro anime, produzido pela Toei em parceria com a TV Asahi, foi exibido no Japão em 1998. Foram 27 episódios e um filme, cobrindo os primeiros momentos do mangá de Kazuki Takahashi. A série não teve o desempenho esperado e acabou cancelada. Até aí, uma história triste, mas comum na TV. O problema foi a decisão de manter os direitos da obra mesmo sem continuar produzindo o anime.

A Shueisha, que publicava o mangá na Weekly Shonen Jump, via a popularidade da história crescer e não queria deixar a adaptação parada no limbo. Sem uma nova versão animada, a série poderia perder espaço e até correr o risco de ser cancelada. Para uma franquia que depois virou um gigante dos cards, seria como jogar Exodia no lixo antes de completar o conjunto.

Um Yugi bem mais sombrio

Parte da diferença entre as duas versões está no próprio material original. Quem conheceu Yu-Gi-Oh! por Duel Monsters talvez espere que a história sempre tenha girado em torno de cartas. Só que, no começo do mangá, Yugi enfrentava desafios de vários tipos: jogos de tabuleiro, dados e outras disputas inventadas para colocar os vilões contra a parede.

Quando o espírito de Yami Yugi assumia o controle, os jogos tinham consequências bem mais cruéis do que uma derrota por 800 pontos de vida. O protagonista funcionava quase como um justiceiro sobrenatural, punindo criminosos e valentões com desafios que podiam terminar de forma perturbadora. A adaptação de 1998 preservou boa parte desse clima mais pesado, que depois foi deixado de lado quando a franquia passou a apostar cada vez mais no card game.

Por isso, fãs de fora do Japão costumam chamar a série de “Season 0”. Ela tem aquele charme de universo alternativo que mostra como uma obra pode mudar de identidade no caminho. O Yugi do começo está bem mais perto de um conto sombrio de vingança do que do herói que anuncia uma nova rodada de duelo toda semana.

A carta mais pesada da Shueisha

O editor-chefe da Shueisha na época era Kazuhiko Torishima, conhecido por ter sido um dos primeiros editores de Akira Toriyama. A personalidade exigente de Torishima também inspirou o Dr. Mashirito, personagem de Dr. Slump. Em outras palavras, Toriyama transformou o chefe em vilão de comédia, mas, na vida real, a fama de durão aparentemente não era só encenação.

Segundo um relato do produtor Yoshiro Takaoka, Torishima defendia que o anime não podia simplesmente desaparecer enquanto o mangá seguia popular. Ele queria recuperar os direitos e encaminhar o projeto para a ADK, mas a Toei não estava disposta a abrir mão deles. A conversa entre as empresas chegou a um impasse.

Foi então que Torishima colocou na mesa uma ameaça difícil de ignorar: se a Toei não liberasse os direitos de Yu-Gi-Oh!, a Shueisha poderia revogar os direitos secundários de uso de Dragon Ball. Não era um detalhe pequeno. A Toei tinha uma relação central com as adaptações animadas de Goku, enquanto a série ganhava força também fora do Japão. Mexer nesse acordo poderia atingir diretamente um dos ativos mais importantes do estúdio.

O que veio depois da ameaça

A pressão funcionou. A disputa foi resolvida e, em 1999, a Konami lançou os primeiros conjuntos oficiais do jogo de cartas. No ano seguinte, a TV Tokyo estreou Yu-Gi-Oh! Duel Monsters, a série que apresentou a franquia a uma geração inteira de fãs e acompanhou boa parte da jornada de Yugi pelos duelos que viraram sua marca registrada.

O primeiro anime, por outro lado, ficou restrito ao Japão e virou uma espécie de raridade para o público internacional. É curioso pensar que a série que conhecemos poderia ter sido bem diferente se Torishima não tivesse usado Dragon Ball como trunfo. A Toei quase perdeu uma franquia valiosa tentando segurar outra, e Yu-Gi-Oh! escapou de ficar preso numa gaveta corporativa.

No fim, a história também mostra como o sucesso de uma obra não depende apenas de audiência ou de boas ideias. Direitos de adaptação podem decidir se uma franquia continua viva ou se vira uma lembrança de poucos episódios. E, nesse duelo específico, a Shueisha comprou a briga com uma carta que a Toei não podia simplesmente ignorar.

Sugestão para o seu Set-up Nerd:

Encontramos produtos incríveis com desconto!

Ver Yu-Gi-Oh! TCG baralho de cartas na Amazon