Donald Sutherland construiu uma carreira gigantesca, mas nunca recebeu uma indicação competitiva ao Óscar.
- Uma carreira de quase seis décadas
- O Óscar que ficou pelo caminho
- O Presidente Snow que ele ajudou a criar
- Televisão e o legado da família
- Um adeus com muita história
Uma carreira de quase seis décadas
Donald Sutherland morreu em 20 de junho de 2024, aos 88 anos, depois de uma longa doença. Nascido no Canadá, em 1935, deixou para trás perto de 200 trabalhos entre cinema e televisão. Não é exagero dizer que atravessou gerações de espectadores sem ficar preso a um só tipo de personagem.
Antes de se dedicar à atuação, estudou engenharia e teatro na Universidade de Toronto. Depois, foi para Londres estudar na LAMDA. Os primeiros papéis vieram em produções pequenas, mas a virada ganhou força com Os Doze Indomáveis, em 1967. Pouco depois, em 1970, já era o irreverente Hawkeye Pierce em M*A*S*H e o soldado Oddball em Kelly’s Heroes.
Nos anos seguintes, mostrou que podia mudar de registro sem pedir licença. Fez o detetive de Klute, contracenando com Jane Fonda, e protagonizou o intenso Aquele Inverno em Veneza, de Nicolas Roeg. Também passou por Invasion of the Body Snatchers, Gente Vulgar, JFK, Orgulho & Preconceito, Ad Astra e Moonfall. Tem carreira que parece uma sessão de streaming com o algoritmo completamente desorientado, mas, nesse caso, no melhor sentido.
O Óscar que ficou pelo caminho
A grande curiosidade é que Sutherland nunca foi indicado a um Óscar competitivo. Nem por M*A*S*H, nem por Klute, nem por Gente Vulgar, filme de Robert Redford que venceu quatro estatuetas da Academia. O trabalho neste último ainda lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro, mas seu nome não apareceu entre os indicados ao Óscar de Melhor Ator.
Isso não significa que a indústria tenha ignorado completamente o ator. Sutherland recebeu indicações e prêmios ao longo da carreira, incluindo um Emmy por Citizen X e Globos de Ouro por trabalhos na televisão. Em 2017, a Academia finalmente o homenageou com um Óscar honorário. É um reconhecimento importante, claro, mas fica aquela sensação de que a estatueta chegou depois de muitas temporadas de atraso.
O Presidente Snow que ele ajudou a criar
Para uma geração mais nova, o rosto de Donald Sutherland está ligado ao Presidente Coriolanus Snow, o líder autoritário de Panem em Jogos Vorazes. O papel nem sequer tinha sido oferecido a ele inicialmente, e o roteiro reservava poucas falas para o personagem. Sutherland leu os livros de Suzanne Collins e decidiu que tinha algo a acrescentar.
Ele escreveu uma carta ao realizador Gary Ross explicando como imaginava Snow: um homem inteligente, controlado e seduzido pelo poder, com as rosas, os olhos e o sorriso como elementos essenciais. A insistência funcionou. O personagem ganhou mais espaço e uma presença sinistra que não precisava de discursos enormes para gelar a sala. Às vezes, um sorriso educado assusta mais do que um vilão berrando, e Sutherland sabia disso.
Televisão e o legado da família
A televisão também foi uma parte importante da trajetória do ator. Em Citizen X, trabalho que lhe rendeu um Emmy em 1995, e em produções como Path to War, Commander in Chief e Trust, ele provou que sua presença funcionava tão bem em histórias longas quanto na tela de cinema. Seu último papel televisivo foi na série Lawmen: Bass Reeves, em 2023.
O filho, Kiefer Sutherland, também encontrou na televisão seu papel mais marcante: Jack Bauer, protagonista de 24. Em 2006, Kiefer ganhou dois Emmys ligados à série, como Melhor Ator em Drama e como produtor executivo da produção vencedora de Melhor Série Dramática. Pai e filho trabalharam juntos em três filmes, mas só dividiram cenas de forma mais significativa em Forsaken, faroeste de 2015 sobre um antigo pistoleiro que tenta se reconciliar com o pai, um pastor interpretado por Donald.
Um adeus com muita história
Donald Sutherland não precisava de uma indicação ao Óscar para provar o tamanho da própria carreira. Ainda assim, é difícil não olhar para Gente Vulgar e pensar que a Academia deixou escapar uma oportunidade evidente. Seu legado, porém, vai muito além de uma lista de prêmios: está nos personagens que ajudou a tornar inesquecíveis, do Hawkeye ao Presidente Snow.
Com quase 200 créditos, uma carreira que passeou por gêneros e décadas e um filho premiado que seguiu seus passos, Sutherland deixa uma filmografia para revisitar sem pressa. E, se você só conhece o ator como o governante de Panem, vale procurar Klute, M*A*S*H ou Gente Vulgar. Snow era assustador, mas Donald tinha muito mais cartas na manga.
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