The World Is Dancing: beleza que não salva a trama

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The World Is Dancing é uma joia visual sobre arte e desigualdade, mas tropeça quando tenta fazer a história dançar junto.

Um Japão em crise, uma arte em ascensão

Ambientado no século XIV, durante o período Nanboku-chō, o animê acompanha Oniyasha, um jovem artista que mais tarde entraria para a história como Zeami Motokiyo, um dos grandes nomes do teatro Noh. Naquele Japão, duas cortes imperiais rivais disputavam poder enquanto guerras, fome e doenças davam à população motivos bem mais urgentes do que discutir estética.

Oniyasha pertence a uma companhia teatral liderada pelo pai. Seu talento no Sarugaku, forma de performance que ajudaria a dar origem ao Noh, chama a atenção de Ashikaga Takauji, xogum e patrono das artes. Com esse apoio, o garoto ganha acesso a palcos importantes e a uma vida muito diferente daquela que a maioria das pessoas ao redor consegue ter.

A premissa abre uma porta ótima: que papel a arte pode ocupar quando tanta gente está tentando simplesmente sobreviver? E quem tem o privilégio de criar quando a pobreza transforma cada dia numa luta? São perguntas que continuam atuais, embora o anime prefira sugerir respostas a encarar essas contradições de frente.

A arte tem preço, e o anime sabe disso

Uma das cenas mais fortes surge quando Oniyasha encontra uma mulher pobre e debilitada, que dança com uma habilidade impressionante. Ela ajuda o menino a aprimorar seus movimentos e, depois, recebe pagamento por isso. A reação dele é de revolta: na cabeça do garoto, a arte não deveria ser feita por dinheiro.

É um conflito interessante, especialmente porque vem de alguém que não precisa pensar no próximo prato de comida. O anime coloca diante do protagonista uma realidade que ele mal consegue compreender, mas a discussão não se aprofunda tanto quanto poderia. Fica a sensação de que a obra enxerga a contradição, aponta para ela e logo segue para a próxima apresentação.

Mais tarde, um amigo de infância de Oniyasha reaparece vivendo na miséria, junto de pessoas vistas com desconfiança pela corte do norte por suas ligações com o lado sul. Uma performance conjunta acaba servindo como gesto de união e perdão. Só que a boa intenção não apaga as consequências para todos os envolvidos, e é aí que a série mostra que nem todo final bonito resolve o estrago.

Oniyasha e o problema de ser talentoso demais

O protagonista é, para mim, o principal freio da narrativa. Oniyasha tem talento, oportunidades e admiradores. Isso poderia render um retrato fascinante de alguém tentando entender o próprio privilégio, mas seus conflitos costumam parecer pequenos diante do mundo brutal em que vive. Ele hesita, porém nem sempre fica claro o que realmente está em jogo para ele.

Há tensão com o pai, que lidera a companhia, mas a relação não ganha a profundidade que promete. O reencontro com o amigo pobre poderia provocar uma mudança moral importante, mas o arco termina sem transformar muito o protagonista. Até a atenção de um admirador rico e bem mais velho, que o idolatra e o enche de presentes, parece passar por Oniyasha sem deixar marcas perceptíveis.

Não é que todo personagem precise sair de cada episódio renascido em chamas, pronto para gritar seu novo propósito como se estivesse em One Piece. Mas, numa história sobre arte, poder e desigualdade, faz falta sentir que esses acontecimentos estão realmente moldando o artista que vemos em cena.

Uma beleza de cinema com roteiro irregular

Visualmente, aí sim, The World Is Dancing entra em cena com o figurino completo. A animação combina cores marcantes, luz e sombra, enquadramentos cuidadosos e mudanças de estilo que dão personalidade às imagens. Nas danças, o movimento tem fluidez e intenção; nos momentos mais quietos, a composição ainda consegue prender o olhar.

A trilha acompanha o clima com precisão e ajuda a dar peso às apresentações. O resultado lembra mais um filme de animação do que uma produção televisiva convencional. Não é pouca coisa: mesmo quando a trama perde força, há sempre um novo quadro bonito para admirar. É como ver um espetáculo impecável cuja história de bastidores não está à altura do palco.

Vale a dançada?

Com 13 episódios, direção de Toshimasa Kuroyanagi e roteiro de Sawako Kawamitsu, o anime adapta o mangá de Kazuto Mihara, publicado em seis volumes. A série não teve lançamento oficial em português no Brasil; segundo as informações disponíveis, pode ser encontrada na HIDIVE com legendas em inglês.

Recomendo The World Is Dancing para quem gosta de animação caprichada, dança e histórias inspiradas em figuras reais. Só não espere que a beleza visual venha acompanhada de uma jornada de personagem igualmente envolvente. A série é linda, mesmo. Tão linda que quase dá vontade de perdoar o roteiro por não acompanhar o ritmo. Quase.

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