Rosebush Pruning chega ao Festival do Rio com uma ideia provocadora de Karim Aïnouz: intimidade na tela pode revelar mais que um longo discurso.
- Uma família fora do eixo
- Filmar em inglês sem mudar de pele
- Quando o corpo assume a conversa
- O encontro com o público brasileiro
Uma família fora do eixo
O novo longa de Karim Aïnouz parte de uma família aristocrática cujas relações já parecem pedir terapia há algumas gerações. A chegada de uma nova namorada, trazida pelo irmão mais velho, bagunça o arranjo e deixa à mostra dinâmicas perturbadoras. O filme combina sátira, tragédia, erotismo e uma dose generosa de teatralidade. Parece um jantar de família em que todo mundo sorri para a foto e, por baixo da mesa, chuta a canela de alguém.
O elenco também chama atenção: Jamie Bell interpreta o irmão mais velho, enquanto Elle Fanning vive a recém-chegada. Callum Turner, Riley Keough e Pamela Anderson completam o grupo de nomes conhecidos. Aïnouz contou que o texto singular e os personagens pouco naturalistas ajudaram a atrair os atores. Para quem costuma transitar por papéis mais realistas, entrar numa obra tão artificial e lúdica pode ser justamente a chance de sair do piloto automático.
Filmar em inglês sem mudar de pele
Rosebush Pruning é o segundo filme de Aïnouz feito em inglês e produzido no Reino Unido. Mas o diretor não vê motivo para trocar seu método só porque está trabalhando em outro idioma ou em outra indústria. Ele procura reservar tempo para ensaios, conversas sobre os personagens e preparação, um processo que considera importante para chegar a interpretações vivas, não apenas decoradas.
O desafio, segundo ele, começa na língua. Mesmo sendo fluente, dirigir em um idioma estrangeiro exige cuidado extra para transformar intuição e emoção em instruções claras. Também é preciso proteger a concentração do elenco, já que atores podem dividir o período de filmagem entre projetos. Aïnouz prefere que permaneçam imersos no personagem pelo tempo necessário. Nada de fazer uma cena dramática às nove e correr para gravar outra produção antes do almoço.
Sobre adaptar o trabalho ao gosto de fora, o cineasta foi direto: não pretende imitar o cinema local para conseguir espaço. A lógica dele é quase o contrário: se a produção procura alguém com uma visão diferente, faz sentido levar para o set a experiência que construiu no Brasil. Uma escolha que, convenhamos, é bem mais interessante do que tentar passar despercebido.
Quando o corpo assume a conversa
Uma das ideias mais fortes da entrevista é a defesa de um cinema que não dependa tanto das palavras. Para Aïnouz, intimidade, dança e movimento podem contar sobre alguém aquilo que vários diálogos explicariam. O erotismo, nesse contexto, não se resume a cenas de sexo: é uma maneira de filmar presença, proximidade e o que os personagens revelam sem precisar verbalizar.
Essa escolha ganha uma camada curiosa num filme que, nas palavras do diretor, tem bastante texto e diálogo. Em vez de competir com a fala, o corpo cria outro ritmo e outra forma de leitura. Aí está a mistura que parece interessar a Aïnouz: um roteiro rigoroso convivendo com gestos, silêncios e uma encenação que não tenta parecer cotidiana o tempo todo. Às vezes, um olhar desconfortável entrega mais que um monólogo caprichado, daqueles que explicam até o que o personagem ainda nem entendeu.
O cineasta também descreveu o equilíbrio de tom como um desafio: fazer uma sátira sem transformar as figuras em caricaturas vazias. A comparação que encontrou foi juntar referências musicais diferentes, como dançar samba ao som de um tango. A imagem resume bem a aposta: manter os personagens humanos enquanto o filme brinca com o exagero.
O encontro com o público brasileiro
A pré-estreia nacional aconteceu no Festival do Rio 2026, e a passagem por uma sala brasileira tem um significado particular para Aïnouz. Seu primeiro longa inteiramente em inglês, Firebrand, chegou ao Brasil direto pelo streaming, sem lançamento nos cinemas. Ele disse ter ficado triste por não poder compartilhar aquele trabalho na tela grande com o público daqui.
Agora, o diretor espera descobrir como espectadores brasileiros vão se relacionar com uma obra filmada no exterior e falada em inglês. Assistir ao longa no festival, com legendas em português, também foi uma experiência estranha para ele: ver o resultado pronto e pensar que aquele filme era seu. É um encontro que pode revelar afinidades entre esse trabalho e os filmes que Aïnouz faz no Brasil, mesmo com diferenças de idioma e contexto.
Rosebush Pruning chega aos cinemas brasileiros em 15 de outubro, com distribuição da MUBI em parceria com a Filmes do Estação. A aposta de Aïnouz não parece ser explicar cada fissura daquela família, mas deixar que a encenação, os corpos e o desconforto façam parte da conversa. E, pelo jeito, essa conversa promete ser bem mais interessante do que uma reunião de parentes comportada.
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