Matheus Nachtergaele revela o lado humano de Cenoura

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Matheus Nachtergaele enxerga Cenoura como uma figura humana, cheia de contradições, em Cidade de Deus: A Luta Não Para.

Por que Cenoura volta à Cidade de Deus?

Cenoura não retorna ao bairro porque sente saudade da vida no crime. Depois de cumprir pena, ele tenta seguir outro caminho e toca uma pequena loja de jogos eletrônicos. A volta acontece por causa dos laços que ainda o prendem àquele lugar e às pessoas de lá. Não é exatamente um retorno triunfal: é mais o tipo de decisão que a gente toma sabendo que vai dar trabalho, mas não consegue simplesmente ignorar quem precisa de ajuda.

Na segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para, o personagem é chamado para tentar orientar os jovens que comandam pontos de venda de drogas. A ideia é que ele ajude a evitar conflitos e ensine alguma medida de civilidade em um ambiente onde a violência costuma falar mais alto. Só que, como qualquer plano feito no meio de uma disputa, esse não fica restrito ao problema inicial.

Em conversa durante a première da série no Festival do Rio, Nachtergaele descreveu Cenoura como alguém que volta contrariado, mas movido por afeto. E isso já diz bastante: ele não é um salvador que chega com respostas prontas. É um sujeito marcado pelo próprio passado, tentando impedir que a próxima geração repita os mesmos erros, enquanto ainda carrega as contradições do lugar de onde veio.

Ninguém é só bom ou mau

Uma das ideias mais interessantes sobre a série, na leitura do ator, é que seus personagens não cabem facilmente em caixinhas morais. Há pessoas que lutam por mudanças e outras que causam sofrimento, claro. Mas ninguém aparece como um símbolo impecável do bem ou do mal. A vida, felizmente ou infelizmente, não costuma funcionar com a clareza de um placar de heróis contra vilões.

É aí que entra o apelido de “coração humano” associado a Cenoura. Ele está envolvido em uma realidade brutal, mas ainda pode demonstrar cuidado, afeto e vontade de apaziguar. Isso não apaga suas escolhas nem transforma o personagem em exemplo de virtude. Só impede que a gente o reduza a uma etiqueta. Para uma história tão atravessada por violência, esse espaço para a ambiguidade é valioso.

A série também reúne figuras ligadas à organização comunitária e à busca por justiça, além de personagens que representam a face mais cruel daquele universo. O contraste não precisa virar uma disputa simplista entre mocinhos e monstros. Quando cada um carrega motivos, falhas e limites, o conflito ganha textura e fica mais próximo das pessoas reais, não de peças movidas apenas para fazer a trama avançar.

O desafio de revisitar um personagem marcante

Voltar a um papel conhecido depois de tantos anos pode ser uma armadilha para qualquer ator. O público já tem uma imagem guardada, e repetir a fórmula seria pouco; mudar demais também pode soar como se o personagem tivesse sido trocado no caminho. Nachtergaele contou que sentiu uma apreensão parecida ao reencontrar Cenoura e ao interpretar João Grilo em O Auto da Compadecida 2.

A comparação que ele fez foi com a tarefa de recriar uma obra de arte famosa: a expectativa está lá antes mesmo de começar. Não dá para simplesmente apertar “repetir” e esperar que a magia aconteça de novo. O trabalho precisa encontrar algo novo no personagem sem fingir que o passado não existe. Para Cenoura, esse reencontro passa justamente pelo desgaste de quem tentou sair daquela engrenagem e acaba chamado de volta.

Também existe uma diferença entre voltar a um personagem e tentar reproduzir uma atuação antiga. A primeira possibilidade abre espaço para mudanças; a segunda corre o risco de virar nostalgia em piloto automático. Se a temporada der a Cenoura espaço para errar, hesitar e se contradizer, o retorno pode acrescentar uma camada interessante à história, em vez de viver apenas da lembrança do filme.

Um coração no meio do caos

O ator também comentou a convivência com o elenco jovem da série. Ele disse que não se via como mentor, apesar da admiração que parte dos colegas demonstrava por seu trabalho. Sua escolha foi reduzir essa distância logo de cara, entrar no clima do grupo e compartilhar o set sem transformar experiência em pedestal. É uma postura simples, mas importante em uma produção que precisa fazer a história parecer viva, não uma aula de veterano para novatos.

A segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para chega à HBO Max em 8 de novembro, segundo o anúncio divulgado junto à entrevista. A volta de Cenoura promete colocar no centro da trama um personagem que conhece por dentro o ciclo que tenta conter. Ele pode não ser o herói certinho que chega para consertar tudo, e ainda bem: num universo de escolhas difíceis, alguém que mistura cuidado e falha talvez seja justamente quem melhor traduz o lado humano da história.

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