Overman chega ao cinema com capa, ego inflado e uma pergunta difícil: o que esse herói quer de verdade?
- Um herói sem manual de instruções
- O Brasil entra em cena, sem pedir licença
- Terapia, Batman e a comparação com Tony Stark
- A próxima missão de Overman
Um herói sem manual de instruções
Adaptar um super-herói conhecido por ser uma figura bem longe do ideal heroico tem uma vantagem: ninguém precisa fingir que ele é um modelo de virtude. Em Overman: O Filme, o personagem de Laerte é um sujeito mulherengo e beberrão que ganha uma oportunidade improvável: vira o super-herói oficial do Estado. A fama, claro, não demora a fazer efeito. E, pelo visto, a humildade não vem no pacote do uniforme.
Na conversa sobre o longa, o diretor Tomás Portella, de Impuros, apontou que a história não está interessada em seguir a cartilha mais previsível do gênero. Sabe aquele arco em que o protagonista começa todo errado e termina transformado numa pessoa exemplar? Overman não parece estar correndo para receber esse certificado de bom comportamento.
O filme prefere cutucar uma questão mais cotidiana, embora bem menos fácil de resolver: será que a gente quer mesmo aquilo que diz querer? Overman acredita que sim, mas pode estar perseguindo uma ideia de felicidade que não combina com ele. É um tipo de confusão que dispensa superpoderes. Basta abrir o aplicativo de carreira às duas da manhã e repensar todas as escolhas da vida.
O Brasil entra em cena, sem pedir licença
Para Maria Lucas, intérprete de Poline, o filme também brinca com a fragilidade por trás da pose de figura pública. Máscara, músculos e capa não resolvem inseguranças, especialmente num mundo em que a popularidade pode crescer por motivos tão aleatórios quanto um vídeo viral. É uma provocação atual sem precisar transformar a história num sermão: às vezes, rir da situação já abre espaço para pensar nela.
Victor Lamoglia, que vive Ésquilo, amigo de Overman, destacou outro barato da adaptação: imaginar como esse tipo de aventura funcionaria por aqui. Não é simplesmente pegar uma fórmula gringa, trocar o cenário por uma rua brasileira e chamar de adaptação. O humor e as referências do personagem ajudam a construir um universo que tem seu próprio jeito de fazer as coisas.
E aí entram nomes como Maníaco Flatulento e Capitalista Imundo, que parecem ter escapado de uma reunião de criação em que alguém decidiu que o bom senso podia ficar do lado de fora. A piada conversa com a origem do personagem nos quadrinhos de Laerte, que usa o universo dos super-heróis para brincar com os clichês do gênero. O resultado tem espaço para figuras que dificilmente entrariam sem alterações num filme sério sobre salvadores do planeta.
Terapia, Batman e a comparação com Tony Stark
Um dos detalhes mais curiosos do longa é colocar Overman numa sessão de psicanálise com o Dr. Lights, vivido por Raphael Logam. A conversa passa por outros heróis e revela como o protagonista se enxerga: ele se aproxima mais da imagem sombria de Batman do que da energia expansiva do Homem de Ferro. Para Overman, Tony Stark é quase um sujeito alegre demais para ser levado a sério.
Portella brincou que essa avaliação talvez mudasse se o Homem de Ferro também aparecesse numa sessão de terapia. E ele tem um ponto: heróis de armadura podem salvar o mundo, mas isso não significa que estejam com a cabeça em ordem. A diferença é que, no caso de Overman, a crise parece fazer parte do passeio, não uma etapa discreta entre duas cenas de ação.
Caco Ciocler interpreta o protagonista, enquanto Logam dá vida ao terapeuta. Já Poline, personagem de Maria Lucas, é uma influencer por quem Overman se apaixona. A presença dessas relações ajuda a puxar o herói para fora do pedestal e colocá-lo diante de questões que não se resolvem com pose para foto ou um discurso inspirador.
A próxima missão de Overman
Ter um super-herói brasileiro no cinema importa menos como competição com Marvel ou DC e mais como chance de contar histórias com uma identidade própria. Overman não precisa provar que o Brasil também consegue fazer um herói de capa. O personagem fica mais interessante justamente quando assume que esse herói pode ser vaidoso, contraditório e meio perdido, sem perder a graça.
Essa mistura de sátira, crise pessoal e figuras absurdas pode render uma aventura diferente da jornada tradicional de origem e redenção. Em vez de perguntar apenas se Overman vai vencer o próximo problema, o filme parece interessado em saber se ele entende o que está buscando. É uma pergunta pequena para um sujeito com superpoderes, mas talvez seja justamente por isso que funcione.
Overman: O Filme, dirigido por Tomás Portella e estrelado por Caco Ciocler, tem estreia prevista nos cinemas brasileiros para 22 de outubro. Até lá, fica a curiosidade: será que o herói vai encontrar uma resposta ou só mais um motivo para marcar a próxima sessão?
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