O Outro Lado das Redes ficou longe do sucesso esperado, e Aaron Sorkin não está procurando culpados no algoritmo: o diretor apontou para si mesmo.
- Sorkin olha para a direção
- O que faltou ao filme?
- Uma carreira de diálogos e desafios
- A próxima tentativa vai mudar o jogo?
Sorkin olha para a direção
Aaron Sorkin assumiu a responsabilidade pelo desempenho abaixo do esperado de O Outro Lado das Redes, continuação de A Rede Social. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, o roteirista e diretor falou sem rodeios sobre o que considera uma limitação importante: sua falta de sensibilidade visual.
É uma admissão curiosa para alguém que já passou décadas escrevendo cenas e personagens para o cinema. Sorkin contou que esperava ter absorvido mais sobre a produção de filmes ao trabalhar com diretores como David Fincher, Danny Boyle e Bennett Miller. Mas acompanhar grandes cineastas de perto não significa, automaticamente, aprender a enxergar como eles.
Ele também reconheceu que ainda se sente como um novato no ramo, mesmo com uma carreira consolidada. Para Sorkin, algumas habilidades de direção podem ser aprimoradas com estudo e prática; outras talvez dependam de um talento que não se ensina tão facilmente. E é justamente essa segunda possibilidade que parece deixá-lo mais inquieto.
O que faltou ao filme?
Os números ajudam a explicar por que a conversa sobre o filme ganhou esse tom. Com orçamento estimado em US$ 30 milhões, O Outro Lado das Redes arrecadou cerca de US$ 17 milhões no mundo todo. A recepção crítica também ficou aquém: a produção aparece com 54% de aprovação entre críticos no Rotten Tomatoes.
Isso não prova que a direção seja a única responsável pelo resultado, claro. Bilheteria depende de um monte de fatores, e uma continuação carrega uma expectativa que pode ser tão pesada quanto uma frota de navios da Marinha. Ainda assim, Sorkin preferiu olhar para o próprio trabalho, em vez de empurrar a culpa para o marketing, para o público ou para o fantasma do primeiro filme.
Esse fantasma não é pequeno. A Rede Social, lançado em 2010 e dirigido por Fincher, virou referência ao transformar a criação do Facebook em um drama afiado sobre ambição, poder e ressentimento. Comparar qualquer sequência a esse impacto já seria complicado. Fazer isso sem a mesma força cinematográfica torna a missão ainda mais ingrata.
Uma carreira de diálogos e desafios
Sorkin tem um currículo que dispensa apresentação para quem gosta de cinema: venceu o Oscar de roteiro adaptado por A Rede Social e escreveu filmes como Questão de Honra e Moneyball: O Homem que Mudou o Jogo. Também assumiu a direção em títulos como A Grande Jogada, Os 7 de Chicago e Apresentando os Ricardos.
Seu talento para diálogos rápidos e cenas de confronto é inconfundível. Mas roteiro e direção são campos diferentes, mesmo quando a mesma pessoa ocupa as duas cadeiras. Escrever uma discussão eletrizante é uma coisa; decidir como a câmera, o espaço e o ritmo vão fazer essa discussão ganhar vida é outro jogo. Nem todo craque do passe vira automaticamente um grande técnico.
Essa diferença não diminui o valor do trabalho de Sorkin como roteirista. Pelo contrário: admitir que há uma parte do ofício que ainda lhe escapa é mais interessante do que fingir que basta repetir a fórmula de um sucesso para acertar de novo.
A próxima tentativa vai mudar o jogo?
Apesar da frustração, Sorkin não descartou a possibilidade de voltar à direção. Ele comparou o momento a uma derrota esportiva: às vezes, os elementos necessários para vencer estão ali, mas não se encaixam. Na avaliação dele, ainda há coisas que fez bem e que podem funcionar melhor numa próxima oportunidade.
É uma aposta honesta, mas não necessariamente simples. Se Sorkin voltar para trás das câmeras, o desafio será transformar seu domínio da palavra em uma linguagem visual tão marcante quanto seus roteiros. A autocrítica, pelo menos, já aponta para o problema que ele quer resolver. Agora falta ver se a próxima chance vai render um filme que convença também quem está sentado na sala escura.
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