Tudo Pode Ser Visto: um filme que mexe com os sentidos

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Tudo Pode Ser Visto não quer facilitar sua vida: o documentário da A24 transforma desconforto em experiência e deixa perguntas no ar.

Mais que verdade ou ficção

É tentador resumir o cinema de Nathan Fielder como “aquele em que a gente nunca sabe se é real”. Só que essa descrição, embora útil para começar a conversa, fica pequena diante de Tudo Pode Ser Visto. O diretor parece menos interessado em brincar de esconde-esconde com a realidade e mais empenhado em desmontar as regras sociais que seguimos sem pensar.

Uma conversa, uma relação amorosa ou uma tentativa de parecer normal podem virar um campo minado nas mãos dele. O riso aparece, mas vem acompanhado daquela sensação de que você não deveria estar assistindo àquilo. É um desconforto muito específico, quase como presenciar uma reunião de trabalho que saiu completamente dos trilhos e perceber que ninguém na sala pretende interrompê-la.

Ao lado do cineasta Lance Oppenheim, Fielder leva essa abordagem ao documentário da A24, com 174 minutos de duração. Não espere uma narrativa comportada, cheia de explicações que organizam tudo em caixinhas. O filme prefere observar situações estranhas até que a gente comece a questionar o que está vendo e, principalmente, como deveria reagir.

Um casal impossível de prever

O centro da história é Elizabeth Holmes, ex-CEO da Theranos, e seu parceiro, Billy Evans. Holmes ficou conhecida por prometer uma revolução nos exames de sangue: a empresa afirmava que conseguiria realizar diversos testes com apenas uma gota. A tecnologia, porém, não funcionava como anunciado, e a empresária acabou condenada por fraude.

Esse contexto já renderia um retrato cheio de tensão. Mas Fielder encontra em Evans alguém disposto a acreditar e apoiar as ideias da companheira, enquanto Holmes carrega uma história marcada por persuasão e engano. O resultado é uma dinâmica que não dá muita chance para o espectador prever o próximo passo. E, quando você acha que entendeu o clima da cena, ela muda de direção.

O filme acompanha os 34 dias que antecedem uma prisão, mas não transforma essa contagem regressiva em um suspense convencional. A graça, se é que dá para chamar assim, está menos em esperar um grande acontecimento e mais em observar como essas pessoas se comportam diante do que está por vir. Tem hora em que o silêncio diz mais do que qualquer explicação.

O desconforto também é forma

A estranheza não está só no que os personagens fazem. A fotografia claustrofóbica aproxima a câmera das situações e reforça a impressão de intimidade, como se a gente tivesse entrado num espaço onde não foi convidado. A iluminação natural ajuda a manter essa sensação crua, sem deixar a imagem com cara de produção montada para explicar cada detalhe.

É aí que a parceria entre Fielder e Oppenheim funciona bem. Fielder provoca o caos e expõe as engrenagens sociais tortas; Oppenheim, com experiência em documentários como Some Kind of Heaven e Spermworld, ajuda a dar forma visual a esse material. Um cria as faíscas, o outro encontra um jeito de filmá-las sem apagar o incêndio.

Essa escolha estética também combina com a proposta sensorial do longa. Não existe uma resposta única para o que cada momento significa, e o filme não corre para entregar uma interpretação definitiva. O público precisa permanecer ali, desconfortável, tentando decidir se ri, se desvia o olhar ou se espera mais um pouco.

Três horas que não saem da cabeça

Com quase três horas de duração, Tudo Pode Ser Visto pede tempo e disposição. Não é exatamente o programa ideal para quem quer desligar o cérebro depois de um dia puxado. Também não acho que cada minuto tenha a mesma intensidade: os momentos mais tranquilos funcionam como uma pausa para absorver o que acabou de acontecer antes da próxima situação insólita.

Mesmo assim, o filme justifica a permanência na sala para quem topa uma experiência menos previsível. Ele não precisa transformar cada cena em revelação nem oferecer um manual para decifrar Holmes, Evans ou o próprio Fielder. Seu efeito está em deixar a cabeça trabalhando quando a sessão termina.

Você pode sair admirando a ousadia, frustrado com a falta de respostas ou simplesmente sem saber o que pensar. Para mim, essa reação dividida é parte do projeto, não um defeito a ser corrigido. Tudo Pode Ser Visto provoca, observa e se recusa a dizer qual é a leitura certa. Às vezes, o teste não é entender tudo: é perceber o que aquele desconforto despertou em você.

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