Naatu Naatu: 100 passos até o Oscar de RRR

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Naatu Naatu nasceu de ensaios exaustivos, mais de 100 ideias de coreografia e quase duas semanas de filmagem.

Uma coreografia com mais de 100 versões

É fácil assistir à cena de “Naatu Naatu” e pensar que os passos simplesmente encaixaram. A história dos bastidores contada por S.S. Rajamouli mostra o contrário: a sequência foi resultado de tentativa, repetição e bastante trabalho de pernas.

Em entrevista ao Omelete durante sua passagem pelo Brasil para a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o diretor contou que o coreógrafo Prem Rakshith criou mais de 100 variações para o passo principal. A equipe experimentou diferentes possibilidades até selecionar as que entrariam no filme.

E não era uma daquelas coreografias que a gente aprende em um vídeo de quinze segundos e reproduz na festa. Segundo Rajamouli, os movimentos eram tão exigentes que Rakshith tinha quatro duplas de assistentes. Quando quem estava ensaiando cansava e os joelhos começavam a pedir arrego, entrava outra dupla para continuar a tentativa.

Esse detalhe ajuda a entender por que a cena parece tão precisa sem perder a sensação de espontaneidade. O resultado é divertido e contagiante, mas por trás da energia quase brincalhona havia uma construção minuciosa. A dança parece uma explosão de improviso; a preparação foi o oposto.

Cinco dias de ensaio e quase duas semanas de filmagem

Os protagonistas, Ram Charan e N.T. Rama Rao Jr., já eram dançarinos talentosos, mas isso não significava que pudessem chegar ao set e acertar tudo de primeira. Rajamouli estima que os dois passaram cerca de cinco dias praticando a coreografia.

O diretor ainda lembrou que havia vídeos dos atores ensaiando exaustos e sem fôlego. Dá para imaginar: o corpo precisa repetir os movimentos, manter o ritmo e ainda transmitir a confiança dos personagens. É quase uma boss fight, só que o inimigo é a própria fadiga e a música não pausa para recuperar energia.

Depois dos ensaios, a gravação levou aproximadamente 12 ou 13 dias. Rajamouli não cravou o número exato, mas descreveu uma rotina intensa: ao fim de cada jornada, elenco e equipe estavam completamente cansados. Ainda assim, voltavam para casa satisfeitos com o trabalho.

É um cronograma que coloca a cena em perspectiva. O que na tela parece uma celebração leve exigiu dias de filmagem e um preparo físico considerável. A edição transforma todo esse esforço em uma sequência fluida, mas os bastidores deixam claro que não foi só apertar o play e deixar os atores dançarem.

A dança como disputa e espetáculo

Em “Naatu Naatu”, a dança também funciona como uma espécie de duelo. Os personagens mostram habilidade, desafiam quem está ao redor e usam o movimento para dominar a situação. É uma solução visual que combina com o estilo de Rajamouli, conhecido por pensar grande e transformar emoções em espetáculo.

Essa ambição não serve apenas para enfeitar o filme. A cena faz a plateia entrar no ritmo e acompanha a amizade entre os protagonistas por meio de uma brincadeira competitiva. Charan e Rama Rao Jr. precisam parecer sincronizados, mas também manter a personalidade de cada personagem. É aí que a execução ganha graça: os dois parecem disputar e cooperar ao mesmo tempo.

O impacto ultrapassou a sala de cinema. “Naatu Naatu” levou o Oscar de melhor canção original em 2023 e virou uma das imagens mais reconhecíveis de RRR: Revolta, Rebelião, Revolução. O prêmio coroou uma música marcante, mas também uma sequência cuja coreografia foi pensada para funcionar como parte da narrativa, não como um intervalo solto.

A amizade no centro de RRR

Apesar de abordar a luta contra o colonialismo, Rajamouli explicou que sua intenção inicial era contar uma história de amizade. O filme imagina um vínculo entre Alluri e Komaram, dois combatentes da independência indiana que viveram na mesma época, mas nunca se conheceram.

Como havia lacunas sobre certos períodos da vida dos dois, o diretor encontrou espaço para criar uma relação fictícia. A história parte dessa liberdade e, ao acompanhar personagens ligados à independência, acaba incorporando os horrores do colonialismo. Segundo Rajamouli, a política não era o ponto de partida; a amizade era.

Essa combinação ajuda a entender por que “Naatu Naatu” funciona tão bem dentro do filme. A cena é uma celebração, uma provocação e uma demonstração de confiança entre os protagonistas. E agora a gente sabe que, para chegar a poucos minutos tão explosivos, foram necessárias mais de 100 ideias, dias de ensaio e quase duas semanas de gravação. RRR está disponível na Netflix no Brasil.

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