IA na Toei: ferramenta criativa ou ameaça?

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A IA na Toei já saiu do campo das hipóteses: o estúdio começou a usar inteligência artificial em produções de cinema e vídeo, com regras internas para orientar a tecnologia.

Regras antes da revolução

Durante o Taiwan Creative Content Fest, em Taipé, Yoshimura Fumio, presidente e CEO da Toei, contou que a empresa começou a aplicar IA generativa em suas produções neste ano. A decisão veio depois de estabelecer diretrizes internas para o uso da tecnologia. É um detalhe importante: em vez de deixar cada equipe testar qualquer ferramenta sem orientação, o estúdio afirma ter criado regras para organizar esse uso.

O executivo, porém, não detalhou quais são essas regras. Não sabemos, por exemplo, como a empresa trata questões como direitos autorais, revisão humana ou divulgação do material gerado por IA. E, numa indústria em que cada quadro carrega trabalho artístico e técnico, são justamente esses pontos que vão dizer se a adoção será responsável ou só conveniente.

A notícia também não significa que a Toei vá transformar suas produções em animações feitas por máquina. O que foi anunciado é o uso da tecnologia em algumas tarefas, não a substituição completa dos processos criativos. Parece uma distinção óbvia, mas a conversa sobre IA costuma pular direto do “estão testando” para “acabou a profissão de animador”.

Onde a IA já entrou

Segundo Yoshimura, a Toei já usa inteligência artificial para criar cenários e ajudar produtores menos experientes a estimar orçamentos. Nesse segundo caso, a ferramenta pode funcionar como apoio na fase de planejamento, oferecendo uma referência inicial para quem ainda está pegando o jeito de calcular os custos de uma produção.

Na criação de cenários, a discussão fica mais delicada. Um recurso pode acelerar testes visuais ou ajudar a explorar possibilidades, mas isso não responde à pergunta principal: quem toma as decisões artísticas e quem recebe crédito pelo trabalho? A tecnologia pode até sugerir uma paisagem bonita. Fazer essa paisagem combinar com o tom de uma história, com seus personagens e com a visão de quem dirige continua sendo outra conversa.

Yoshimura citou ainda Dreams of Violets, longa live-action produzido inteiramente com IA generativa e selecionado para o Festival de Tribeca. O filme mostra que esse tipo de produção já existe fora do laboratório. Mas um caso isolado não determina como a Toei vai usar a ferramenta em cada projeto, nem prova que toda produção feita assim será mais barata, rápida ou interessante.

Ferramenta ou substituta?

O CEO defendeu que a IA não representa uma ameaça aos empregos, mas amplia as possibilidades de expressão e de negócios. É uma visão otimista, e faz sentido como declaração de quem está explorando novas ferramentas. Ainda assim, não basta dizer que a tecnologia é uma aliada: o impacto real depende de como ela muda as tarefas, os prazos e as equipes.

Na prática, uma ferramenta que automatiza parte de um processo pode liberar profissionais para outras atividades, mas também pode reduzir a demanda por certas funções. As duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo. Para quem trabalha com animação, portanto, a pergunta não é só se a IA vai roubar empregos. É quem controla o uso, como os trabalhadores participam das decisões e se os ganhos de produtividade serão divididos com as equipes.

As regras internas da Toei são um começo, não um selo automático de segurança. Sem conhecer o conteúdo dessas diretrizes, é cedo para cravar se elas protegem artistas, dão transparência ao público ou apenas definem o que a empresa considera aceitável. O debate precisa acompanhar a prática, não só o discurso de palco.

A Toei quer ir além

A adoção de IA faz parte de um momento de expansão para a empresa. A Toei anunciou a marca Toei Games, que deve lançar Hino no início de 2027, com Killa e Debug Nephemee previstos para a primavera. Os jogos, criados por desenvolvedores externos, chegam primeiro ao Steam e depois devem aparecer em consoles como Switch, PlayStation e Xbox.

O plano internacional da companhia, chamado “Toei New Wave 2033”, tem como meta elevar de 30% para 50% a parcela de receita obtida fora do Japão. A estratégia também inclui lançamentos de Kamen Rider em diferentes regiões e parcerias internacionais, como a adaptação de uma obra de Junji Ito com empresas da Tailândia e da Coreia do Sul.

Ou seja, a IA é uma peça de uma mudança maior, que envolve novas mídias e públicos. Para fãs de One Piece, Dragon Ball e tantas outras obras ligadas ao estúdio, o que importa não é a ferramenta da moda, mas o resultado na tela. A Toei diz que quer ampliar possibilidades. Agora, resta ver se essa tecnologia vai servir às histórias ou se as histórias terão de se dobrar a ela.

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