Amyr Klink em 100 Dias ganhou uma liberdade rara: o próprio navegador deixou Carlos Saldanha conduzir a adaptação sem fiscalizar cada detalhe.
- Uma história que levou décadas
- “Meu livro, seu filme”
- O barco também tem alma
- A travessia chega ao cinema
Uma história que levou décadas
Transformar uma aventura real em filme costuma exigir escolhas: condensar acontecimentos, reorganizar passagens e encontrar uma forma visual para aquilo que, no livro, vive nas palavras. Em 100 Dias, adaptação da obra de não ficção de Amyr Klink, Carlos Saldanha recebeu espaço para fazer justamente isso. O navegador chamou sua postura de uma espécie de “concessão poética”.
Em conversa com o Omelete durante o Festival do Rio de 2026, Klink explicou que preferiu não interferir em detalhes da produção. A ideia era simples: o livro é dele, mas o filme pertence ao diretor. Em vez de cobrar fidelidade absoluta a cada fala ou elemento de cena, confiou na equipe e na visão de Saldanha, conhecido por A Era do Gelo.
É uma decisão que faz sentido. Um filme não é uma gravação literal de um livro, muito menos uma reconstituição com o autor sentado ao lado do diretor dizendo onde pôr cada bandeira. A adaptação precisa respirar como cinema. E, pelo relato de Klink, essa liberdade não virou licença para tratar a história de qualquer jeito.
“Meu livro, seu filme”
Klink contou que brincou com Saldanha dizendo que não faria comentários do tipo “isso não aconteceu assim” ou “a bandeira tinha outra cor”. O navegador elogiou o rigor do diretor, a pesquisa das produtoras parceiras e o cuidado da equipe com detalhes que até ele já havia esquecido. A concessão, portanto, não foi um cheque em branco: foi confiança construída a partir do trabalho.
Essa diferença importa. Quando uma história real vai para a tela, é comum o público cobrar precisão como se cada segundo de um longa pudesse funcionar como ata de cartório. Só que cinema também trabalha com ritmo, perspectiva e emoção. A escolha interessante aqui foi deixar o responsável pela encenação contar a travessia sem transformar o protagonista real em supervisor de continuidade.
O resultado parece ter agradado ao próprio navegador. Klink disse que assistir ao filme foi divertido e emocionante, não apenas por rever a viagem, mas por perceber que uma parte muito pessoal de sua vida agora pode ser acompanhada pelo público. A experiência, nas palavras dele, ganhou algo de odisseia, tanto pelo percurso até o cinema quanto pela travessia que inspirou a obra.
O barco também tem alma
Para Klink, a relação com embarcações não se resume a medidas, materiais e projeto. Ele lembrou uma crença de marinheiros noruegueses: existem barcos tristes, em que tudo dá errado, e barcos felizes. O brasileiro disse ter tido a sorte de navegar em barcos felizes, mesmo quando os problemas pareciam indicar que nada daria certo.
Na visão dele, até dois barcos feitos com o mesmo projeto podem ganhar personalidades diferentes. Cada um teria uma alma própria, ideia que aparece também nas tradições de construção naval de diferentes regiões do Brasil. É uma imagem bonita e combina com a adaptação: a travessia não é só um conjunto de obstáculos no oceano, mas uma experiência ligada ao barco, ao navegante e às escolhas feitas pelo caminho.
Klink também comentou que havia um barco real no set. Ao assistir ao material de bastidores, brincou que Filipe Bragança, intérprete do navegador, sofreu mais no Atlântico do que ele. É o tipo de comentário que quebra a pose épica sem diminuir o tamanho do desafio. Afinal, atuar em um barco cenográfico e remar de verdade pelo oceano são experiências bem diferentes, mesmo que a produção tenha buscado autenticidade.
A travessia chega ao cinema
A viagem de 100 Dias começou muito antes das câmeras. Segundo Klink, a adaptação atravessou quase três décadas e passou por diferentes produtores, roteiristas e versões de roteiro. O projeto esteve ligado à Conspiração Filmes e ao cineasta Breno Silveira, mas enfrentou mudanças de equipe, textos que não avançaram e dificuldades que adiaram sua realização.
O próprio navegador resumiu essa longa espera com humor. Quando uma nova tentativa de roteiro surgiu por meio de uma relação pessoal de um dos envolvidos, ele brincou que talvez fosse melhor esperar sua morte para fazer o filme, porque o processo já começava a parecer pouco profissional. Depois, uma nova produtora entrou na história, mas também encerrou as atividades. A produtora Paula Cosenza acabou sendo uma peça importante para aproximar o projeto de Saldanha.
Agora, a travessia que Klink realizou a remo pelo Atlântico Sul em 1984 ganha uma versão para o público das salas de cinema. 100 Dias tem estreia brasileira marcada para 29 de outubro de 2026. E há algo especialmente apropriado em o navegador ter aberto mão do controle: depois de tantos anos tentando fazer o filme sair do porto, talvez a melhor maneira de vê-lo chegar seja deixar que outra pessoa conduza o barco.
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